Um pedaço de papel

Em 29.11.2015   Arquivado em Crônicas

Umpedaçodepapel

Like Real People Do – Hozier

Foi uma daquelas noites. Aquela em que você sai com a sua melhor amiga porque ela simplesmente precisa daquele momento depois de um fora básico.

Aí você a leva em um lugar diferente de tudo o que estão acostumadas.

A bebida é de graça, já que você é amiga de uns trezentos e tantos promoters que te colocam pra dentro e praticamente te bancam. É até divertido.

Bebemos como se não o houvesse amanhã e MILAGROSAMENTE estamos sãs o suficiente pra chegar em casa. Pelo menos é o que esperamos.

O problema é cada uma vive em um lado da cidade, e haverá um certo momento em que será só você e… Deus. De noite, naquelas ruas mal iluminadas e que são dignas de filmes de terror.

Aí eu pego o metrô sozinha torcendo pra acertar o caminho de casa. Não que eu esteja exatamente bêbada. Mas “alegre” já é o suficiente pra se perder, certo? Certo.

Eu só sento no banco. Aparento estar tranquila e certa do que estou fazendo, mas acho que não é bem isso.

Continuo a mascar meu chiclete e bancar a garota da cidade, porque sim.

Então eu o vejo. Cabelos perfeitamente penteados para o lado como se tivessem acabados de ser moldados daquela maneira. A camisa social branca com alguns detalhes para dentro da calça escura igualmente bem passada.

É simplesmente impossível não notá-lo ao lado do amigo de trabalho. Pergunto-me o que diabos eles estão fazendo em pleno final de semana enquanto eu simplesmente estou voltando de uma noitada com uma amiga que precisava ser animada.

Eu não sei se é o álcool ou se eu simplesmente queria que ele me notasse. Só pra constar que eu costumo ser o tipo mais discreto normalmente.

O problema é que simplesmente não consigo. Olho-o insistentemente até que ele sinta que está sendo observado dentro do vagão lotado – se considerado o horário.

Então ele finalmente me olha. Juro que se não estivesse sentada minhas pernas vacilariam quando os meus olhos encontraram os dele. Tão incrivelmente claros e hipnotizantes…

Não eram verdes. Não eram azuis. Talvez um meio termo entre o paraíso e o inferno?

Eu o encarei tanto que foi impossível não me notar. Acho que até mesmo um cego me notaria. Se eu não estivesse levemente alterada, estaria me xingando por isso. Aliás, eu nem o teria feito.

Talvez eu me sentisse constrangida. Talvez ELE se sentisse constrangido.

Mas tudo o que ele fez foi me encarar de volta. Talvez surpreso com a minha “ousadia”, talvez tentado para ver o que poderia acontecer.

Então ele sorriu e acenou discretamente. E eu fiquei tão ou mais surpresa. Tudo o que consegui fazer foi sorrir de volta como se debochasse da atitude impensada dele de acenar para uma desconhecida – embora eu tivesse adorado.

Virei o rosto e fingi me concentrar na janela escura que não mostrava nada além da escuridão dos túneis que engoliam o metrô.

É claro que continuei a observá-lo pelo reflexo. Ele fez o mesmo, e aquilo fez com que um sorriso fraco me escapasse dos lábios.

A estação na qual eu desceria já estava bem próxima, e eu sabia que talvez aquela fosse a primeira e última vez que eu o veria. Então eu fiz algo que eu com certeza não faria em estado normal.

Mais do que rapidamente, peguei um papel jogado na minha bolsa e o meu lápis de olho. Escrevi uma série de números em um garrancho de possível entendimento. Quando ouvi a voz abafada da caixa de som do metrô anunciar a minha estação, cruzei o outro lado do vagão.

Ele me olhou de cima abaixo surpreso com a minha presença. Meus olhos se prenderam nos dele enquanto a minha mão rapidamente se esticava em direção ao bolso direito da camisa dele, na altura do tórax. Enfiei o papel ali sem perder o contato visual.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa ou eu me arrepender do que tinha acabado de fazer, avancei em direção da saída. Quando olhei para trás, o vi me encarando com um pequeno sorriso nos lábios enquanto as portas se fechavam. Eu sorri de volta e tomei o meu caminho.

Ponte

Em 12.10.2015   Arquivado em Crônicas

Ponte

This Love – Taylor Swift (Cover by Melanie Ungar)

Eu só fui. Acho que é uma daquelas coisas que você tem que fazer sem pensar nas consequências, sabe? Algumas coisas simplesmente acontecem.

E eu fiz. Liguei pra um cara com quem conversei uma única vez porque simplesmente precisava de alguém que pudesse estar comigo em uma terça-feira fria típica de uma noite de outono em New York.

E o mais maluco foi vê-lo chegar enquanto eu estava sentada no banco no qual conversamos por acaso em uma outra noite sem sentido na Brooklyn Bridge. E aquela era apenas mais uma noite sem sentido.

Pelo menos foi o que eu finalmente concluí quando ele parou de pé ao lado do banco. Jaqueta de couro e calça jeans. Sneakers da Nike nos pés. Também tinha um cachecol desajeitado no pescoço. As mãos estavam nos bolsos enquanto ele me encarava quase que eternamente.

Eu o encarei de volta e fiquei pensando no que o havia feito ir até lá. Nós nem éramos amigos! É verdade que tínhamos algumas aulas juntos na New York University, mas não é como se isso significasse algo já que nem nos falávamos. Pelo menos até aquela noite maluca em que acabamos conversando depois de fugir de uma festa em que a polícia acabou aparecendo.

E quando eu finalmente analisei toda a situação e comecei a considerar a me jogar da ponte por ter feito a besteira de ter ligado e me sentir a pessoa mais idiota do mundo, ele se jogou ao meu lado, se esparramando no banco e deixando as pernas bem relaxadas enquanto fingia que não via o caminho que as lágrimas secas fizeram no meu rosto.

O engraçado é que eu poderia ter ligado pra qualquer pessoa. Qualquer mesmo. Tenho certeza que qualquer uma das minhas amigas teriam vindo no mesmo momento. O problema é que quando eu destravei o meu celular e deslizei o dedo pela minha lista de contatos o primeiro nome que meus olhos encontraram foi o dele: Dylan.

Quer dizer… Ele é um cara legal. Pelo menos foi o que me pareceu quando estávamos conversando daquela vez. E eu posso afirmar isso com certeza – já eu não havia bebido naquela noite porque aquela era a vez da minha amiga encher a cara e eu ser a responsável da vez. E ele não havia bebido porque… Simplesmente não sei o por quê.

Ele suspirou enquanto passava a encarar o rio East, que de noite parecia um grande tapete escuro refletindo as luzes que Manhattan emitia imponentemente do outro lado da ponte. Eu estava esperando que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Mas a única coisa que ele fez foi molhar os lábios algumas vezes.

E aquilo meio que me irritou, sei lá.

– Não vai dizer nada? – perguntei tentando fazer com que a minha voz não soasse trêmula.

– Eu deveria? – ele respondeu com outra pergunta, dando um sorriso torto. Continuou a encarar o rio.

– Sei lá… Eu te fiz sair do dormitório dez e meia da noite em uma terça-feira fria pra vir até a Brooklyn Bridge. – ele finalmente me encarou franzindo a testa. – Qual é… Não é algo que uma pessoa faria normalmente. Quer dizer… Nós nem somos amigos.

Ele riu fraco.

– É… Confesso que achei estranho. Mas e daí?

– Você não tinha algo melhor pra fazer, né?

– Eu poderia estar jogando videogame agora. Ou dormindo.

Dessa vez fui eu quem riu fracamente.

– E não vai me perguntar o por quê disso tudo?

– Você esteve chorando. – ele pontuou rapidamente. Encolheu o corpo quando sentiu um vento mais cortante passar por nós. Eu fiz o mesmo.

Assenti em resposta e ele não disse nada.

– Não vai perguntar o que houve?

– Não sei se é algo que você realmente quer que eu faça. Já teria me contado antes se quisesse. – era verdade. – Você só precisava estar com alguém, não é? – aquilo me fez ficar em silêncio porque não sabia que resposta dar sem parecer uma garota idiota. – E eu estou aqui.

Nesse momento percebi que estávamos nos encarando. Meus olhos estudaram a expressão simples e amena que ele carregava. Ele sempre a tinha no rosto. Era como se nada fosse capaz de tirá-lo do sério. Era como se ele fosse capaz de lidar com qualquer coisa. E naquele minuto eu concluí que talvez esse fosse um dos motivos que me fez ligar pra ele.

Aquilo me fez questionar o por quê de eu nunca ter falado com ele antes daquela noite. Ele simplesmente esteve ali naquela noite, e tenho que confessar, foi divertido. Era como se nos conhecêssemos a vida toda. A verdade é que ele esteve durante todo aquele tempo… E agora ele estava aqui comigo sem cobrar qualquer explicação prudente.

Eu poderia ter agradecido. Eu poderia ter continuado aquela conversa. Poderia até mesmo contar o por quê de tudo aquilo. Mas tudo o que eu fiz foi depositar a minha cabeça no ombro dele.

Eu precisava. Ele estava lá. E as coisas… Elas simplesmente acontecem.

 

Saindo dos trilhos

Em 21.09.2015   Arquivado em Crônicas

Trem

Skinny Love – Birdy

Aí vem o trem que me levará a outra direção. Tudo o que eu carrego é uma mala onde eu acredito estar a minha vida. Isso depois de uma história muito mal resolvida.

É uma história sobre o momento em que deixo de ser alguém com quem você realmente se importa.

Sempre achei que fosse pra sempre, sabe? Eu e você. Mas acho que essa ideia boba mudou quando eu comecei a arrumar a minha mala e vi que você apenas ficou encostado no batente da porta, assistindo àquilo. Eu tentei juntar minhas coisas até que devagar, na esperança de você me pedir pra ficar.

Idiota. Acho que essa história é mais sobre como fui idiota do que sobre nós. Tantas mentiras, tantas traições… E eu ainda preferia uma vida com você do que uma vida comigo mesma.

Começo a ter aqueles questionamentos que eu deveria ter tido durante todo o nosso relacionamento. Você me amou? Você realmente segurou a minha mão para me salvar ou me atirar no precipício em que estou?

Pena que eu só percebi tudo isso agora, sentada no banco enquanto espero o trem mais demorado da minha vida. O trem que finalmente me fará mudar de estação. E então eu darei aquele passo que eu deveria ter dado há muito tempo. Aquele que me fará ir embora sem olhar para trás, a fim de uma nova vida. Uma vida sem você.

Aí vem o trem.

Um conto sem fadas

Em 16.09.2015   Arquivado em Crônicas

Lost It To Tyring – Son Lux

Talvez tenha sido o jeito com que você andou até mim no meio daquela festa à fantasia. Não diria que foi como aquelas cenas de filme, em que o garoto passa pela pista de maneira única, chamando a atenção de todos. Na verdade, foi uma entrada como outra qualquer. Um cara vestido de pirata com uma espada presa ao cinto e uma caneca de cerveja levantada no alto enquanto gargalhava. Romântico, não?

E eu ali, com a fantasia tão ou mais clichê quanto a sua: anjinho. E não sei por que raios acabei chamando a sua atenção. Quando dei por mim, já estava dançando com você em meio àquela multidão de personagens bêbados e histéricos.

Pulávamos e dançávamos como se houvesse apenas nós dois dentro daquele salão. O seu rosto estava mal iluminado devido ao jogo de luzes que ficava piscando frequentemente, mas ainda assim dava para ver o quão era lindo.

Não vou dizer que você me ganhou na conversa, porque na altura do campeonato, nós nem conseguíamos ouvir o que o outro falava com aquele som alto que enchia o ambiente. Era inútil tentar se comunicar, então logo começávamos a rir, um da cara do outro. Também não havia muita coisa para ser dita naquele momento. Nossos olhares eram capazes de se entender muito bem, obrigada. Estava claro. Eu queria você, e você me queria.

Nossos olhares haviam se conectado desde o momento em que eu o vi com a cerveja que você quase derrubou porque alguém havia lhe esbarrado. E naquele momento eu soube.

Nunca fui uma princesa, então nunca imaginei que fosse encontrar um príncipe encantado. Sempre gostei de algo mais aventureiro e avassalador. No fundo, sempre tive uma inclinação para piratas, sabe?

Mas quer saber qual é a vantagem de eu não viver num conto de fadas? Deu meia-noite e eu não precisei sair correndo para voltar para casa na minha abóbora gigante, nem perder meu sapatinho de cristal na corrida que não aconteceu. Deu meia-noite, e lá estávamos, eu e você.

E melhor do que nesses contos, nossa história não acabou com um beijo e um “feliz para sempre.” Terminou de uma maneira muito melhor. De uma maneira que eu sabia: haveria continuação.

– Posso te levar pra casa?

O metrô e as suas peculiaridades

Em 01.06.2015   Arquivado em Crônicas

metrô

Eu entrei descabelada dentro do vagão, em busca de um lugar para me apoiar. Os assentos já estavam ocupados, como de costume.

Praguejei alguma coisa que não me lembro bem. Geralmente lembro das coisas que pronuncio. Mas naquele momento pareceu-me que as palavras dançavam de tal maneira que a minha língua se enrolou dentro da boca.

Não sabia se o que via a minha frente era um anjo ou um demônio, mas era o ser mais bonito que a luz dos meus olhos algum dia havia captado.

Estava de pé, um pouco a frente. Não pude distinguir a cor dos seus olhos, pois eles estavam ocupados demais, correndo pelas páginas de um livro de capa dura que carregava entre as mãos. Podia ver sua mandíbula se contrair distraidamente enquanto absorvia alguma informação que parecia muito mais interessante do que eu, que havia acabado de chegar.

Pensei em me aproximar. Pensei em cutucar-lhe, derrubar uma moeda, não sei. Queria ganhar um olhar que fosse. Ele roubou a minha atenção, afinal. Porque não poderia conceder-me um pouco da sua?

Depois achei bobeira. Me xinguei interiormente por pensar em tudo aquilo sobre um estranho em menos de cinco minutos. Ri de mim mesma, passando a mão pelos fios soltos que caíam do meu coque bagunçado. E posso jurar que senti meu rosto esquentar quando ele enfim me olhou. Minha risada abafada e sem graça tirou-o de seu torpor.

Fiquei tão sem graça que baixei o olhar, procurando me focar em qualquer coisa que não os meus sapatos, mas meus olhos pareciam quase sair de órbita. Então foi a vez dele rir baixo antes de se aproximar porque mais gente adentrava o metrô.

Seu peito foi de encontro ao meu ombro, porque algum idiota o empurrou para entrar.

“Desculpe.” Foi o que ele disse.

Verdes. Seus olhos eram claros e incrivelmente verdes. Eu teria respondido se me lembrasse disso. Apenas sorri de canto, já que foi a única coisa que meu corpo se lembrou de como fazê-lo. Sua pele cheirava a grama recém-cortada e menta, talvez. Eu gosto de menta.

“O que você está escutando?”. Acho que deixei de prestar atenção na música que embalava meus ouvidos na hora que entrei ali. Nem percebi que ainda estava com os fones de ouvido.

Percebi que as esmeraldas que corriam por aquele livro tão mais interessante que eu estavam mais preocupados comigo do que com as palavras misteriosas que liam antes. A mandíbula se contraía esperando pela minha resposta.

Eu teria respondido. Se não tivesse que ir.

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