Resenha: Circo Invisível

Em 15.04.2016   Arquivado em Livros

Depois de trezentos e cinquenta e sete séculos muito tempo, o Além do Meu Mundo tira a poeira da estante da categoria Livros e traz uma obra da série “gostei da capa”: Circo Invisível, de Jennifer Egan. Cansada de ler os best-sellers da vida, quando ainda estava no Brasil (old but gold…), me aventurei em escolher um livro que estivesse fora dos holofotes juvenis. Não costumo fazer muito isso, mas as duas únicas vezes que realmente julguei um livro pela capa, eu acertei lindamente.

Quer dizer… Como esse livro não chamaria a atenção, gente?? Com esse nome sugestivo que te leva a algum lugar que você não sabe bem qual… E depois o jogo de luzes que brinca com o mistério de um cavalete… Quando vi, já estava levando o livro para o caixa!

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Nunca havia lido nada da Jennifer, e preciso admitir que ela me surpreendeu de uma maneira única. Não é um livro de ação. Não é um livro de amores impossíveis. Não é um livro de seres sobrenaturais. É um livro sobre a vida, e como ela pode nos pregar peças. É um livro que fala do ser humano e descreve como ele pode ser vulnerável. É uma trama que fala sobre a perda de alguém querido. E que fala mais do que isso: como seguir em frente.

A história se passa em 1978, e acompanhamos a vida da nossa querida Phoebe, uma jovem de 18 anos de São Francisco que acaba de se formar. Poderíamos dizer que Phoebe é aquela típica adolescente normal, com sonhos e vida normais… Mas acho que deve ser um pouco difícil ser “normal” quando se perde o pai e a irmã mais velha, mesmo depois de muitos anos.

Nos deparamos com uma narrativa misteriosa e melancólica que nos traz flashbacks de quando o pai e a irmã ainda eram vivos. Acompanhamos a infância dos três irmãos: Faith, a filha preferida, exemplo para todos; Barry, o irmão inteligente e ofuscado; e Phoebe a caçula que se espelha sempre na irmã mais velha. Tudo isso para tentar desvendar o que circunda a morte de Faith. Os boatos eram de que a primogênita tivesse se suicidado na Itália, enquanto viajava com o namorado pela Europa.

Depois de conhecermos um pouco do passado e do “presente” (final da década de 70) da família O’Connor, Phoebe acaba despertando e percebendo o marasmo no qual a sua vida havia se tornado devido as ondas de acontecimentos que pareciam tê-la congelado para sempre no tempo. Um tempo onde o pai, e principalmente a irmã, estavam vivos em sua memória e nas paredes da casa da família.

É quando, tomada por esses desespero de se desprender dos laços maternos e das raízes locais, Phoebe decide se jogar de verdade, e ir para a Europa. Mas é claro que essa viagem não é uma viagem qualquer. Depois de tanto sonhar com aquele momento, Phoebe decide refazer os passos de sua irmã para tentar descobrir, afinal de contas, o que realmente havia acontecido em 21 de novembro de 1971, o dia da morte de Faith.

Por meio dos cartões postais que a irmã havia mandado a família, Phoebe refaz o caminho de Faith. Inglaterra, Holanda, Bélgica, França, Alemanha… É aqui que a vida da nossa protagonista vira de cabeça para baixo, pois um personagem super importante surge para ajudá-la a desvendar o mistério que ronda a sua vida: Wolf, o ex-namorado de Faith.

A partir daqui, Phoebe consegue mais informações concretas sobre tudo o que veio a acontecer antes do fatídico acontecimento. Mas nem tudo estava claro, pois segundo Wolf, eles já não estavam mais juntos na época. Movido seja lá pelo que ele estava sendo movido, Wolf decide seguir viagem com ela até Corniglia, na Itália, com o seu velho carro.

Alpes italianos, Áustria, Espanha… Depois na Itália, passando pelas cidades de Pisa, Gênova, La Spezia, Vernazza… Para então chegarmos à misteriosa e tão esperada Corniglia. Nesse ponto, você já está completamente apaixonada por toda a estrada europeia, pelas cidadezinhas… Fica difícil não querer estar lá.

E é aqui que a nossa Phoebe finalmente descobre como tudo aconteceu. E acreditem… Fiquei pasma, pois não imaginei que ela fosse conseguir descobrir como as coisas exatamente aconteceram. Os detalhes… Foi além do que eu esperei, sério. Tinha esperado um desfecho completamente diferente, e acho que é isso o que eu mais gosto nos livros. Quando não são acabam de uma maneira tão óbvia.

Esse livro descreve situações cotidianas, mas ao mesmo tempo, únicas e super reflexivas. Nos remonta cenários políticos e sociais da década de 70 de uma maneira espetacular. Além disso, Jennifer descreve tudo tão bem, que há um certo momento em que você simplesmente se sente parte da viagem de Phoebe.

Parece que o nome não tem nada a ver com a obra, mas acredite em mim, TEM SIM. E tudo meio que gira em torno dos acontecimentos da década. Entra bastante coisa de história, então preparem-se!

Agora a pergunta que não quer calar: Você indica esse livro, Nats? Indico. Indico duas, três vezes, se precisar. No fundo, todos temos um pouco de Phoebe dentro de nós. Eu, particularmente, me identifiquei muito com as indagações e os questionamentos da personagem. São coisas que eu achei que só nós, jovens da atualidade, questionávamos. E eu errei. Acho que tenho uma visão de mundo diferente agora.

Entre na história fascinante de Jennifer Egan sem medo. Juro que você não vai se arrepender!

 

Pra quem se interessou pelo livro, taí o PDF do primeiro capítulo!

 

 

“Em ‘Circo Invisível’, Jennifer Egan prova que não importa o que quer que estejamos procurando, em geral queremos encontrar a nós mesmos.” The New York Observer

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