Ninguém é obrigado

Em 24.08.2016   Arquivado em Crônicas, Off topic, Por aí

Dia desses um amigo fez aquela pergunta que todo mundo responde em algum momento da vida: “Você já se decepcionou com as pessoas? Com o amor?”

Sabe aquele silêncio ensurdecedor que paira no ar nos momentos mais inesperados? Pois é.

Fico me perguntando até agora por que diabos minha voz ficou entalada na garganta e eu não consegui dar a resposta que já estava na ponta da língua. Vai ver é aquele medo de se expor que no fundo todo ser humano tem. Aquele medo de se mostrar frágil. De se mostrar quebrável.

E mesmo depois da conversa fiquei com aquela pergunta ecoando nos meus ouvidos quando deitei a minha cabeça no travesseiro. Porque eu tinha mesmo a resposta na ponta da língua.

Afinal de contas, acho que todos nós um dia já sofremos e nos decepcionamos. Dentro e fora do amor. E comigo, claro, não seria diferente.

Sabe por que nos decepcionamos? Porque esperamos demais das pessoas. Achamos que só porque somos capazes das loucuras mais absurdas quando gostamos de alguém (não só no amor, mas também na amizade), só porque nos entregamos demais, achamos que as pessoas têm a mesma obrigação conosco. Que o sentimento precisa ser mútuo.

Só porque eu já cansei de largar minhas obrigações pra socorrer uma amiga que tá com dor de amor e passar a madrugada com ela vendo filmes, comendo gordices e aconselhando, não significa que essa amiga irá fazer o mesmo por mim. Só porque eu abri mão de sonhos para estar ao lado de um grande amor, não significa que esse grande amor fará o mesmo por mim. Conseguem entender?

As pessoas nem sempre fariam o mesmo por nós. E é aí que mora a polêmica! Sabe aquela famosa frase da sociedade contemporânea dos memes malucos? “Eu não sou obrigada!”? Pois é, ninguém é obrigado a ser recíproco. E isso deveria ser completamente aceitável.

Só que não é. Em se tratando do ser humano, não é. Somos egoístas mesmo sem querer. Queremos aquilo que as pessoas são incapazes de nos oferecer. E nem é culpa delas, sabe? Como elas vão oferecer algo que não têm?

Meu pai sempre me dizia isso e eu demorei muito pra entender. Confesso que até hoje ainda me custa aceitar, mas é a mais pura verdade. Precisamos parar de esperar demais das pessoas e a ser tão dependentes delas. Se aquilo é o que elas têm para oferecer e não lhes é o suficiente, então talvez seja hora de deixar pra lá, não acham? Afinal de contas… Nós também não somos obrigados a viver com pouco, viver de miséria. Isso mesmo. Não somos obrigados. Ninguém é.

A praga que é te esquecer

Em 31.07.2016   Arquivado em Crônicas

Ouça: Like a Fool – Keira Knightley

É engraçado como acreditamos no poder de certas atitudes para esquecer alguém. Quer dizer… Eu acreditei de verdade que apagando suas fotos das minhas redes sociais… Ou rasgando aquelas outras do mural fariam eu simplesmente esquecer que você já esteve na minha vida.

Eu também acreditei que deletando as músicas do meu iPod – aquelas que costumávamos escutar dividindo o fone de ouvido enquanto ficávamos deitados na sua cama olhando as estrelas pela janela – também deletariam você da minha memória.

Tive certeza absoluta que ia esquecer completamente as noites que você dormiu na minha cama trocando os móveis de lugar e dando embora os objetos de decoração que você me deu – e que eu adorava tanto.

Doei até mesmo as roupas que você me deu. Ou aquelas que você gostava que eu vestisse. Lembra aquele vestidinho azul, o meu preferido? Dei embora com muita dor no coração, só porque você dizia que eu ficava incrível nele.

E seu nome? Fiz minhas amigas banirem do nosso vocabulário. Fizemos um pacto e toda vez que alguém citar o seu nome, perde dez reais. E mesmo assim, adivinha quem é a que perdeu mais dinheiro? Se apostou em mim, acertou. Acertou em cheio.

Aliás, você me acertou tão em cheio que eu já nem sei mais quem sou. Fico me perguntando o que mais eu tenho de fazer pra tirar você da minha vida, dos meus pensamentos, dos meus lábios, dos meus sonhos. Já me peguei rezando à noite, pedindo a Deus que me livrasse das memórias que me levam até você. Já me peguei torcendo pra que aquele tratamento de esquecimento do filme “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” – aquele filme que assistimos juntos, lembra? – existisse, porque eu certamente aceitaria passar pelo processo. Eu aceitaria qualquer remédio, qualquer macumba, qualquer droga que substituísse o vício que você se tornou na minha vida.

Daria tudo por uma noite bem dormida, um sonho que só fosse meu, um pensamento que só fosse sobre mim, uma música que me lembrasse a mim. Daria um dos meus rins se dissessem que isso funcionaria.

Já tentei tudo o que é possível pra te esquecer. E mesmo assim, continuas muito vivo em minha memória. Eu lembro de tudo. Lembro até mesmo do timbre da sua voz enquanto andava de costas me encarando no meio daquele parque e me ordenava que eu fizesse o que eu tenho tentado fazer durante todo esse tempo: “Me esquece.

Do que sei sobre o amor

Em 15.06.2016   Arquivado em Crônicas

amor

Ouça: Like I’m Gonna Lose You – Meghan Trainor ft. John Legend

 

Eu não sei. Tudo o que eu consigo fazer quando tento nos explicar pra alguém é sorrir.

Eu poderia até me fazer de difícil contigo, poderia bancar a irritadinha que sempre fui e simplesmente não dar o braço a torcer. Porque eu… Eu nunca fui de me entregar assim, de primeira. Comigo tudo sempre foi um jogo, sempre foi na base das entrelinhas, das indiretas.

Só que com você isso simplesmente nunca aconteceu. Com você não existe joguinho, não existe armas de ataque e defesa. Eu nunca precisei mentir ou omitir o que sinto e penso. E isso é, sem dúvida, o que eu mais amo na gente – dentre tudo o que existe na gente e que eu amo tanto.

Aliás, amo tudo na gente. Amo como eu me perco no verde dos olhos mais brilhantes que já cruzaram os meus. Amo como sua mão encontra o meu rosto com facilidade e a maneira como meu corpo reage ao seu simples toque. Amo como a minha mão se encaixa na sua.

Amo como me sinto completa e inteira ao seu lado. Como não preciso mentir nem fazer média contigo.

Amo a maneira como os cantos dos seus lábios se curvam pra baixo quando eu digo algo que te surpreende. Amo o som da sua risada e como você sempre dá uma encolhidinha nos ombros pra rir, como se fosse uma criança.

Amo quando me puxa pra si como se não precisasse de mais ninguém por perto. Amo como até o timbre da sua voz muda rapidamente quando você está conversando com alguém e de repente está falando comigo. Amo o zelo que emana do seu olhar quando está me observando.

Amo o jeitinho cúmplice que me olha quando estamos no meio das pessoas. Como nos entendemos só com um olhar. Amo quando você faz aquela carinha de sem vergonha e não pode comentar o que tem vontade.

Amo sua feição de sono lutando pra não dormir. Amo como não tem vergonha de mostrar que precisa de mim e me quer por perto. Amo como você nunca escondeu o que sente perto dos seus amigos. Amo como soamos tão natural perto das pessoas. Amo nossas piadas e nosso jeito de provocar um ao outro. Amo quando soltamos farpinhas e logo nos redimimos porque não queremos errar com o outro, não queremos repetir erros de relacionamentos passados. Amo quando diz “nossa casa/nosso quarto/nossa cama” em uma frase. Amo quando você fala sobre uma vida juntos.

Amo o som do seu “R”. Amo quando me chama de chatice. Quando me chama de guria então…! Perco o chão. Aliás, quer me ver perder o ar? É só dizer “nossa, você me deixa louco, guria” com a voz um pouquinho rouca e dar aquela estreidadinha no olhar da maneira que você faz.

Amo como você nunca teve medo de demonstrar ou dizer o que sentia, desde aquela noite, naquele parque. Amo como você me mostra como sua “fraqueza”, como você amolece e não se importa com isso.

Amo o jeito como me aperta contra seu corpo. O jeito como me prende. Amo como o seu corpo se encaixa e se molda ao meu. Amo o desejo que emana do seu olhar quando estamos só eu e você. Amo como a minha pele parece queimar quando você me toca. Quando você diz que sou linda e o quanto me deseja. De que sou a melhor e não existiu nenhuma como a mim. De que sou única.

Amo cada parte de ti que chega a doer, garoto.

Eu. Amo. Te. Amar.

Carta aos Leitores

Em 18.02.2016   Arquivado em Por aí

cartaa

Liberdade ou Solidão – Tiago Iorc

Sim, dessa vez eu vim me explicar. Porque apesar de não serem muitos, vocês, meus leitores, têm sido fieis e vindo visitar o Além do Meu Mundo com mais frequência do que eu esperava. Aliás… Não só vieram visitar, como também vieram perguntar por onde a dona desse mundo andava.

E por esse motivo acho que lhes devo satisfações e desculpas por ter sumido sem aviso prévio.

Quem me conhece sabe que não sou de ficar expondo minha vida pessoal aqui no blog. Quer dizer… Nem precisa me conhecer o suficiente. Basta dar aquela checada básica no conteúdo dos posts. Por isso, talvez alguns de vocês considerem as minhas explicações um tanto quanto superficiais. Vou tentar fazer o máximo para me fazer compreendida.

Pois bem. O Além do Meu Mundo parou por um tempinho, mas o meu mundo não. Muitas coisas aconteceram desde o último post, e por vezes pensei em postar uma crônica pronta. Eu tenho um enorme arsenal já pronto e poderia muito bem ter alimentado o conteúdo do blog. Mas o problema é que eu não sentia vontade.

“Como assim, Nats? É só copiar e colar, quirida.” Ora essa, eu bem sei! Afinal de contas, os posts geralmente são pré-produzidos, o que significa que não os produzo no momento de postá-los.

Inúmeras foram as vezes em que loguei na conta para postar. Mas por algum motivo que até agora não sei dizer qual, achava que nenhum dos posts que eu tinha deveria ser postado naquele momento. Não era o momento deles, sei lá. Dá pra entender?

Sei que não… Mas não se preocupem, pois isso me frustra tanto quanto deve frustrar vocês. Quer dizer… Esse é o momento em que eu tenho mais ideias, mais coisas brotando do meu coração e prontas para serem passadas para o papel (ou tela). E toda vez que peguei meu livrinho de viagem… Toda vez que abri o Word… Meus dedos tamborilavam e desistiam.

Porque minha cabeça está a mil e não consegue transferir o comando certo aos meus punhos. Não consegui escrever para o blog… Não consegui escrever minha fanfiction… Não consegui escrever uma porcaria de um cartão postal! E então eu acho que entendi.

Entendi depois de muito tempo que era tempo de não escrever, mas sim de viver. Estou sempre tão preocupada em querer escrever sobre tudo o que vejo e todos que conheço e desconheço… Que esqueci de escrever a principal história: a minha.

A realidade é que sempre esqueci de mim. Sempre coloquei as pessoas na frente, cuidei muito mais delas do que de mim. Gostei muito mais delas do que de mim. Na teoria e na poesia isso é lindo. Mas na prática…

Você vai desaparecendo sem nem perceber. E essa foi a minha resolução de Ano Novo: eu desapareci.

Desapareci e não sabia como mudar aquela sensação. Pela primeira vez me senti um pontinho sendo engolido pelas luzes e prédios da minha tão amada New York. Pela primeira vez não me senti parte dela nem de nenhum lugar. Algo estava muito errado e eu precisava mudar.

Era hora de eu começar a “olhar para o meu umbiguinho”, hora de pensar no que era melhor para mim, e não para os outros. Tem uma frase que pelo menos uma vez na vida todos nós escutaremos. “É você em primeiro lugar, você em segundo, em terceiro… E DEPOIS você pode PENSAR em começar a pensar em alguém.” Pois bem.

Pensar apenas em si mesmo não é assim tão simples quanto parece, não se deixe enganar. Porque pensar em si mesmo inclui ignorar o que as pessoas pensam sobre você ou se você terá que magoá-las para colocar o seu interesse e a sua pessoa em primeiro lugar. Inclui você tentar parar de controlar tudo ao seu redor. Inclui você parar de controlar o que sente e começar a se perguntar o que de fato está sentindo.

E é nesse processo em que me encontro neste exato momento. Foi uma surpresa quando finalmente decidi abrir os meus olhos, quando finalmente decidi olhar para baixo e me enxergar em vez de olhar para os lados. Tem coisa pra mudar, muita coisa pra fazer. E eu nem sei direito por onde começar, mas a principal coisa eu tenho: vontade.

Vontade de me amar. Vontade de tentar. Vontade de errar. Vontade de crescer. Vontade de me arrepender. Vontade de arriscar. Vontade de correr. Vontade de me machucar. Vontade de sarar. Vontade de refletir. Vontade de escrever. Vontade de concluir. Vontade de recomeçar. Vontade de viver.

E a notícia é: tem tanta vontade em mim que estou voltando. A espera acabou, meus leitores, meus amigos.

Ponte

Em 12.10.2015   Arquivado em Crônicas

Ponte

This Love – Taylor Swift (Cover by Melanie Ungar)

Eu só fui. Acho que é uma daquelas coisas que você tem que fazer sem pensar nas consequências, sabe? Algumas coisas simplesmente acontecem.

E eu fiz. Liguei pra um cara com quem conversei uma única vez porque simplesmente precisava de alguém que pudesse estar comigo em uma terça-feira fria típica de uma noite de outono em New York.

E o mais maluco foi vê-lo chegar enquanto eu estava sentada no banco no qual conversamos por acaso em uma outra noite sem sentido na Brooklyn Bridge. E aquela era apenas mais uma noite sem sentido.

Pelo menos foi o que eu finalmente concluí quando ele parou de pé ao lado do banco. Jaqueta de couro e calça jeans. Sneakers da Nike nos pés. Também tinha um cachecol desajeitado no pescoço. As mãos estavam nos bolsos enquanto ele me encarava quase que eternamente.

Eu o encarei de volta e fiquei pensando no que o havia feito ir até lá. Nós nem éramos amigos! É verdade que tínhamos algumas aulas juntos na New York University, mas não é como se isso significasse algo já que nem nos falávamos. Pelo menos até aquela noite maluca em que acabamos conversando depois de fugir de uma festa em que a polícia acabou aparecendo.

E quando eu finalmente analisei toda a situação e comecei a considerar a me jogar da ponte por ter feito a besteira de ter ligado e me sentir a pessoa mais idiota do mundo, ele se jogou ao meu lado, se esparramando no banco e deixando as pernas bem relaxadas enquanto fingia que não via o caminho que as lágrimas secas fizeram no meu rosto.

O engraçado é que eu poderia ter ligado pra qualquer pessoa. Qualquer mesmo. Tenho certeza que qualquer uma das minhas amigas teriam vindo no mesmo momento. O problema é que quando eu destravei o meu celular e deslizei o dedo pela minha lista de contatos o primeiro nome que meus olhos encontraram foi o dele: Dylan.

Quer dizer… Ele é um cara legal. Pelo menos foi o que me pareceu quando estávamos conversando daquela vez. E eu posso afirmar isso com certeza – já eu não havia bebido naquela noite porque aquela era a vez da minha amiga encher a cara e eu ser a responsável da vez. E ele não havia bebido porque… Simplesmente não sei o por quê.

Ele suspirou enquanto passava a encarar o rio East, que de noite parecia um grande tapete escuro refletindo as luzes que Manhattan emitia imponentemente do outro lado da ponte. Eu estava esperando que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Mas a única coisa que ele fez foi molhar os lábios algumas vezes.

E aquilo meio que me irritou, sei lá.

– Não vai dizer nada? – perguntei tentando fazer com que a minha voz não soasse trêmula.

– Eu deveria? – ele respondeu com outra pergunta, dando um sorriso torto. Continuou a encarar o rio.

– Sei lá… Eu te fiz sair do dormitório dez e meia da noite em uma terça-feira fria pra vir até a Brooklyn Bridge. – ele finalmente me encarou franzindo a testa. – Qual é… Não é algo que uma pessoa faria normalmente. Quer dizer… Nós nem somos amigos.

Ele riu fraco.

– É… Confesso que achei estranho. Mas e daí?

– Você não tinha algo melhor pra fazer, né?

– Eu poderia estar jogando videogame agora. Ou dormindo.

Dessa vez fui eu quem riu fracamente.

– E não vai me perguntar o por quê disso tudo?

– Você esteve chorando. – ele pontuou rapidamente. Encolheu o corpo quando sentiu um vento mais cortante passar por nós. Eu fiz o mesmo.

Assenti em resposta e ele não disse nada.

– Não vai perguntar o que houve?

– Não sei se é algo que você realmente quer que eu faça. Já teria me contado antes se quisesse. – era verdade. – Você só precisava estar com alguém, não é? – aquilo me fez ficar em silêncio porque não sabia que resposta dar sem parecer uma garota idiota. – E eu estou aqui.

Nesse momento percebi que estávamos nos encarando. Meus olhos estudaram a expressão simples e amena que ele carregava. Ele sempre a tinha no rosto. Era como se nada fosse capaz de tirá-lo do sério. Era como se ele fosse capaz de lidar com qualquer coisa. E naquele minuto eu concluí que talvez esse fosse um dos motivos que me fez ligar pra ele.

Aquilo me fez questionar o por quê de eu nunca ter falado com ele antes daquela noite. Ele simplesmente esteve ali naquela noite, e tenho que confessar, foi divertido. Era como se nos conhecêssemos a vida toda. A verdade é que ele esteve durante todo aquele tempo… E agora ele estava aqui comigo sem cobrar qualquer explicação prudente.

Eu poderia ter agradecido. Eu poderia ter continuado aquela conversa. Poderia até mesmo contar o por quê de tudo aquilo. Mas tudo o que eu fiz foi depositar a minha cabeça no ombro dele.

Eu precisava. Ele estava lá. E as coisas… Elas simplesmente acontecem.

 

Um conto sem fadas

Em 16.09.2015   Arquivado em Crônicas

Lost It To Tyring – Son Lux

Talvez tenha sido o jeito com que você andou até mim no meio daquela festa à fantasia. Não diria que foi como aquelas cenas de filme, em que o garoto passa pela pista de maneira única, chamando a atenção de todos. Na verdade, foi uma entrada como outra qualquer. Um cara vestido de pirata com uma espada presa ao cinto e uma caneca de cerveja levantada no alto enquanto gargalhava. Romântico, não?

E eu ali, com a fantasia tão ou mais clichê quanto a sua: anjinho. E não sei por que raios acabei chamando a sua atenção. Quando dei por mim, já estava dançando com você em meio àquela multidão de personagens bêbados e histéricos.

Pulávamos e dançávamos como se houvesse apenas nós dois dentro daquele salão. O seu rosto estava mal iluminado devido ao jogo de luzes que ficava piscando frequentemente, mas ainda assim dava para ver o quão era lindo.

Não vou dizer que você me ganhou na conversa, porque na altura do campeonato, nós nem conseguíamos ouvir o que o outro falava com aquele som alto que enchia o ambiente. Era inútil tentar se comunicar, então logo começávamos a rir, um da cara do outro. Também não havia muita coisa para ser dita naquele momento. Nossos olhares eram capazes de se entender muito bem, obrigada. Estava claro. Eu queria você, e você me queria.

Nossos olhares haviam se conectado desde o momento em que eu o vi com a cerveja que você quase derrubou porque alguém havia lhe esbarrado. E naquele momento eu soube.

Nunca fui uma princesa, então nunca imaginei que fosse encontrar um príncipe encantado. Sempre gostei de algo mais aventureiro e avassalador. No fundo, sempre tive uma inclinação para piratas, sabe?

Mas quer saber qual é a vantagem de eu não viver num conto de fadas? Deu meia-noite e eu não precisei sair correndo para voltar para casa na minha abóbora gigante, nem perder meu sapatinho de cristal na corrida que não aconteceu. Deu meia-noite, e lá estávamos, eu e você.

E melhor do que nesses contos, nossa história não acabou com um beijo e um “feliz para sempre.” Terminou de uma maneira muito melhor. De uma maneira que eu sabia: haveria continuação.

– Posso te levar pra casa?

Memórias mundanas

Em 20.08.2015   Arquivado em Crônicas

MemóriasMundanas

Skinny Love – Birdy

Ainda sinto o cheiro de canela emanar do meu travesseiro toda vez que afundo o meu rosto nele. Ainda consigo encontrar o seu olhar toda vez que me escondo debaixo do edredom, como costumávamos fazer de madrugada, com uma lanterna. Ainda lembro do som da sua risada, toda vez que eu fazia uma piada, mesmo quando ela era sem graça. E ela sempre era.

Lembro como você ficava irritada toda vez que eu tentava contar as sardas do seu rosto e acabava perdido nas próprias contas. Ou de como as minhas covas das bochechas apareciam tímidas quando você passava a ponta dos meus dedos sobre elas e me fazia sentir cócegas. Ainda lembro de como você enrugava o nariz e torcia a boca quando algo não lhe agradava.

Ainda guardo na memória como você ficava linda com aquele jeans surrado. E o barulho que aquele seu par de All Star branco encardido fazia no assoalho da minha casa. De como eu me escondia toda vez que eu a escutava subir as escadas para lhe dar um susto. Mas no final, era sempre eu que me assustava.
Sinto saudades de como nossas risadas combinavam. De como sua mão cabia dentro da minha. Sinto saudades de quando você praguejava porque eu encostava meus pés gelados nos seus para me esquentar. E de como você sempre se dava por vencida.

Funcionávamos tão bem juntos! Era como se você tivesse sido feita sob medida pra mim. Sim, era você quem havia sido feita pra mim, e não o contrário. Você sempre dizia isso, lembra? Porque eu sou três anos mais velho. Porque quando veio ao mundo, eu já estava nele. Portanto, você nunca havia vivido num mundo em que eu não estivesse antes. E por causa disso, parece que você se achou no direito de me fazer viver num mundo sem você.
Num momento eu tinha tudo! E agora… Não existe mais canela, nem olhares, nem lanterna, nem risada, nem piada. Não existem sardas ou covinhas. Nem rugas no nariz ou boca torta. Que dirá o jeans surrado e o barulho do All Star no meu assoalho! Não existe mais sua mão dentro da minha, nem o calor pra me esquentar. Porque você deixou o meu mundo. E não me levou com você.

Aqueles Olhos

Em 08.07.2015   Arquivado em Crônicas

AquelesOlhos

Tenerife Sea – Ed Sheeran

Aqueles olhos. Por mais que eu tente eles não saem da minha cabeça, não consigo me esquecer. Não consigo me esquecer de como eles brilhavam, refletindo a luz que emanava do céu, fosse dia ou noite. Fosse sol ou chuva.

Aqueles olhos que eram capazes de transmitir todos os sentimentos do mundo numa só encarada. Era carinho, era dor, era mistério. Eles sorriam, eles choravam.

Já faz tempo que eu não os vejo. Me sinto no escuro, esperando por mais um dia como aqueles em que eu tinha a sorte de vê-los se abrirem para ganhar a claridade do quarto. As pupilas se contraíam rapidamente, como se a luz as assustassem de prontidão. Mas era tudo muito rápido. Era preciso ficar muito atento se quisesse ver tudo isso acontecendo, pois em questão de segundos seus olhos já ganhavam a calma do Mar Cáspio. Então era como se eu mergulhasse, me afogando na beleza deles.

Era como se eles me dessem a vida e a morte. Meu coração acelerava e parecia querer rasgar o meu peito como uma seda que vai se desfiando facilmente. E eu podia ficar olhando para eles durante o dia todo, juro que não me importaria.

Eles tinham um certo poder sobre mim. Droga, como me doía quando eles choravam e eu sabia que eu era o culpado! Era como se as suas lágrimas fossem lâminas cortantes que me atingiam lentamente enquanto aquele azul me encarava e perguntava “Por quê?”.

E mesmo não os vendo mais, sinto que esse poder, essa hipnose continua. Porque quando fecho os meus olhos, eles são tudo o que eu consigo ver. Aqueles olhos.

Onde estarão agora? Em outro quarto, do outro lado do mundo? Iluminando-se e mostrando-se Cáspio para outro alguém que não eu? Mostrando-se um puro mistério pronto para ser desvendado? Fazendo-se serem mergulhados?

Eu espero que esse alguém lhes dê a mesma atenção e valor que eu lhes dava. Que esse alguém não perca um único detalhe da maravilha que é vê-los acordando para um novo dia. Aqueles olhos.

 

 

Insanamente

Em 07.07.2015   Arquivado em Crônicas

Insanamente

Minha mente é daquelas que funcionam de maneira insana na madrugada. Isso doi, machuca, corroi.

Pois é quando o silêncio da rua nasce, na calada da noite, que tudo começa a pipocar dentro da minha cabeça. Meus fantasmas acordam e resolvem fazer uma festa.

A amiga insônia é a primeira a chegar, o que me faz ficar deitada, encarando o teto. E se fecho os olhos, sou importunada por aqueles pensamentos que simplesmente não me deixam.

Continuam fortes, correndo pela minha cabeça. Não entendo muito bem de anatomia nem de como o corpo funciona, mas tenho a impressão que existe um atalho do meu cérebro que vai direto ao coração, porque os pensamentos brincam dentro de mim como crianças correm em um parque de diversões. E quando atinge o meu coração, o pensamento que era pensamento se torna sentimento. E essa é a hora que eu mais sofro.

Sofro sentindo o que já passei e o que estou para passar. Sempre fui dessas de sofrer por antecipação, sabe? Daquelas que vive num eterno drama, sofrendo antes, durante e depois.

Essa sou eu, insana e imprecisa como um tornado. Intensa como a própria força da natureza. Mas enganados aqueles que acham que sou dura feito uma rocha, firme feito as raízes das árvores. Sou tão frágil e tão mutável quanto aquela folha que você vê caindo e dançando com o vento até chegar ao chão. Aliás… É onde eu sempre termino depois de passar a noite em claro pensando. No chão.

Entre Livros

Em 23.06.2015   Arquivado em Crônicas

EntreLivros

Por que ainda doi falar sobre você? Cruzes, sinto minhas pernas bambearem só de ouvir alguém pronunciar o seu nome. Mesmo quando nem se trata de você. É como se você fosse o único que se chamasse assim.

Dizem que quando as coisas são inacabadas, é assim que as pessoas acabam se sentindo. Você se sente assim?

Foi o que os meus olhos procuraram saber quando te encontrei na livraria.

E mesmo depois de tanto tempo sem se ver, parecia que era só mais um dia, depois de uma das nossas brigas idiotas.

Engraçado. Eu que tanto sei atuar, me vi como uma adolescente besta, quase se enfiando entre as estantes de livros quando percebi que era você. Só que não deu tempo.

“E aí, Jujuba?”. Só você me chamava de Jujuba. Droga.

“Hm. Oi!”. Tentei soar surpresa, como se não tivesse te notado antes, com um livro qualquer nas mãos. Nem consegui falar seu nome. Será que você percebeu?

Será que pra você foi fácil me chamar daquela forma sem que nada diferente batesse contra o seu peito? Lembro que mentia tão bem quanto eu.

Sim, essa onda de detalhismos e pensamentos invadiram a minha mente nesses poucos segundos em que tudo se seguiu.

Meus ombros caíram quando você me deu um abraço surpresa e um tanto quanto demorado. Demorei milésimos de segundos para me recuperar do mini-choque e lhe retribuir o gesto, mas para mim aquilo durou minutos infinitos.

“Tudo bem?”. Você perguntou enquanto ainda me abraçava.

“Tudo… E você?”. Minha voz saiu meio fraca, como se eu estivesse tentando preservar um pouco de fôlego depois de correr uma maratona. Até deixei o livro cair.

O barulho foi o suficiente para fazer com que você percebesse a demora do seu abraço, e então se afastou.

“Tudo bem”, finalmente respondeu enquanto se abaixava para pegar o livro caído no chão. Tudo isso sem perder o constante contato visual comigo. Era como se suas amêndoas me escaneassem e tentassem ler tudo o que você havia perdido nesses dois anos em que estivemos afastados.

De novo, ficamos nos encarando, como se não existisse mais ninguém além de nós na livraria. Analisei o seu rosto. Nada havia mudado nele. Fiquei feliz. Outro indício de que talvez nosso afastamento fosse só um pesadelo e que aqueles dois anos nem tinham existido. Por que foi que nos afastamos, mesmo?

Meu devaneio foi interrompido quando você esticou a mão direita para entregar o livro.

“Distraída como sempre.”

Você deu um sorriso fraco antes de se afastar, e toda aquela situação me frustrou. Você não havia sentido nada, afinal.

Abaixei meus olhos, ligeiramente decepcionada. Foi quando percebi um papel se sobressaindo no meio do livro. Puxei-o instintivamente, e para a minha surpresa, reconheci aquela letra corrida e levemente inclinada:

 

“Ainda sinto sua falta.

 

Meu número ainda é o mesmo, caso tenha se perguntado.”

 

Não consegui evitar um riso baixo enquanto meu coração acelerou.

Estava tão distraída que nem percebi quando ele colocou aquele papel dentro do livro enquanto nos encarávamos.

Distraída e sempre.

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