Sobre sonhos, âncoras e a tal da liberdade

Em 26.06.2015   Arquivado em Crônicas

SobreSonhos

Eu quase larguei tudo. Tudo mesmo: faculdade, família, emprego, amigos, namorado.

Quando no meio daquela avenida tão cinza (e ao mesmo tempo, tão colorida) eu encontrei aquelas pessoas sentadas no chão, vendendo símbolos, pulseiras de pedras naturais e filtros dos sonhos.

Havia quem passasse por eles e pensasse “bando de hippie folgado e vagabundo”. Vagabundos porque eles decidiram viver do jeito que lhes convinham? Então eu os chamaria de corajosos. Corajosos porque não mediram esforços para estarem ali. Provavelmente devem ter sido crucificados pela família. “Você se matou anos na faculdade pra isso?”

E daí? Não é a pergunta que nos fazemos todos os dias quando somos explorados em um emprego onde não somos reconhecidos e que sequer é o nosso emprego dos sonhos?

Sonhos. Meus olhos tinham grudado nos filtros dos sonhos enquanto eu passava apressada para o meu compromisso.

Não sei que diabo me fez dar meia volta e dar atenção ao grupo de pessoas sentadas na calçada enquanto realizavam algum trabalho manual de artesanato. As roupas da maioria que ali se encontrava eram claras. De alguma maneira me lembrava do aspecto da natureza, não sei bem como explicar.

Eu, que antes havia me encantado apenas com o filtro, agora me via com os olhos correndo curiosos por cada artefato diferente exposto em um tecido escuro que cobria o asfalto.

“Fica à vontade pra experimentar o que quiser”, disse o rapaz estranho de dreads que estava de pé. Nem o havia notado ali.

Me abaixei para ver melhor o trabalho deles. Enquanto corria o dedo pelas pedras naturais, uma menina sentada me chamou a atenção. Ela parecia estar fazendo uma pulseira com alguns cordões escuros.

“Gostou de alguma coisa?”. Os olhos verdes dela se destacavam com o cabelo escuro e extremamente curto.

“Posso ver aquele pingente?”, apontei para o pequeno objeto que parecia feito de ouro velho.

Ela o colocou na palma da minha mão e eu passei a admirá-lo. O pingente era uma âncora. Não sei o que me chamou a atenção, afinal, a âncora em si nunca teve um significado especial pra mim.

“Vocês estão sempre por aqui?”, perguntei sem tirar os olhos do artefato na minha mão.

“Na verdade estamos indo embora hoje!”

“É mesmo? E pra onde vão?”. Agora a menina havia ganhado a minha atenção novamente.

“Vamos para as praias do Nordeste.” Ela sorriu.

“Já viajamos o Brasil todo assim. Com pouco dinheiro e pouca roupa. Mas sempre voltamos com a bagagem cheia de histórias.” O rapaz de dreads voltou e eu nem sabia de onde ele tinha saído de novo.

Histórias. Sempre gostei de histórias.

“Há quanto tempo fazem isso?”, perguntei olhando pra ele.

“Há muito tempo! Mas ela está com a gente faz dois meses.”

Virei para a menina novamente. Esta me encarava com um sorriso no olhar.

“Quantos anos você tem?”, eu perguntei de novo.

“Tenho 21!”

“Eu também! Estou terminando a minha faculdade!”

“Sério? Eu tinha começado a minha, mas conheci o pessoal e resolvi tentar algo novo, pra variar.”

Pra variar.

Como podíamos ter a mesma idade e vivermos em mundos tão diferentes? Onde o mundo dela começava? Onde o meu terminava? Quão fina era a linha da liberdade que nos separava?

Nossa conversa morreu ali, sem pé nem cabeça.

“Vou levar a âncora.”

O rapaz rapidamente me fez um cordão para pendura-lo no pescoço.

“Boa escolha. É a esperança na tempestade.”

Eu espero que seja. Pra variar.

Além de Tudo

Em 24.04.2015   Arquivado em Crônicas

 

divalemdetudo

Eu saí pela porta sem nem olhar pra trás. Sabia que se me atrevesse, eu desistiria. É difícil se desprender de algo ao qual se está tão acostumada.

Eu nem sabia para onde estava indo, mas sentia que seria uma grande jornada. Conseguia sentir o sangue correr quente pelo meu corpo, em busca de algo que eu nem sabia o que era. Mas eu simplesmente corri. Corri até me perder na escuridão daquela cidade viva apenas pelas luzes que me embaçavam os olhos. Corri até sentir o ar se esvair e meus pulmões arderem. Até eu sentir meu coração bater contra o peito com força, pedindo por mais emoção, por mais aventuras.

Sempre fui o tipo de garota que escondia o rosto, que sorria de canto. Aquela que sentava na janela à espera de um sonho que talvez passasse por ali, enquanto observava as poucas estrelas que são ofuscadas pela presença das luzes artificiais em meio àquela cidade que se confunde com tanto cinza. Ficava ali assistindo as vidas passarem abaixo de mim. Tantas histórias, tantos universos… E eu ali, no meu pequeno infinito. Bem, eu cansei. Cansei e fugi do óbvio.

Chega de viver o que querem que eu viva. Eu quero calor, eu quero intensidade, eu quero incerteza, eu quero pular de cabeça e sentir aquele frio na barriga de uma queda livre, sem cordas, sem nada que me segure. Quero voar. Voar alto o bastante para ver tudo o que eu perdi vivendo naquela ilha de mesmice que achei que fosse o certo. Quero que o vento brigue com o meu cabelo, que assim como eu, quer ser livre. Sem amarras.

Quero levar um tombo, bater as costas, ralar o joelho. Quero sentir dor, quero chorar, e quero que aquele mesmo vento que brigou comigo vire meu amigo e me seque as lágrimas. Quero que a dor passe e eu volte a andar, para depois correr, pular. E voar. Quero que o sol me cegue com a sua luz, a única luz real capaz de vencer as artificiais. A única luz capaz de se vingar pelas estrelas que perdem seu brilho diante da imensidão e da imponência dos prédios durante a noite. Quero que esse sol me cegue e me faça acreditar na felicidade plena para que eu aposte todas as minhas fichas naquele amor maluco. Quero ter que quebrar a cara e achar que jamais me recuperarei. E quero me recuperar. E quero amar de novo.

Eu fugi do óbvio para transcender. Viver. Ir além. Além do meu mundo.

 

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