Entre Livros

Em 23.06.2015   Arquivado em Crônicas

EntreLivros

Por que ainda doi falar sobre você? Cruzes, sinto minhas pernas bambearem só de ouvir alguém pronunciar o seu nome. Mesmo quando nem se trata de você. É como se você fosse o único que se chamasse assim.

Dizem que quando as coisas são inacabadas, é assim que as pessoas acabam se sentindo. Você se sente assim?

Foi o que os meus olhos procuraram saber quando te encontrei na livraria.

E mesmo depois de tanto tempo sem se ver, parecia que era só mais um dia, depois de uma das nossas brigas idiotas.

Engraçado. Eu que tanto sei atuar, me vi como uma adolescente besta, quase se enfiando entre as estantes de livros quando percebi que era você. Só que não deu tempo.

“E aí, Jujuba?”. Só você me chamava de Jujuba. Droga.

“Hm. Oi!”. Tentei soar surpresa, como se não tivesse te notado antes, com um livro qualquer nas mãos. Nem consegui falar seu nome. Será que você percebeu?

Será que pra você foi fácil me chamar daquela forma sem que nada diferente batesse contra o seu peito? Lembro que mentia tão bem quanto eu.

Sim, essa onda de detalhismos e pensamentos invadiram a minha mente nesses poucos segundos em que tudo se seguiu.

Meus ombros caíram quando você me deu um abraço surpresa e um tanto quanto demorado. Demorei milésimos de segundos para me recuperar do mini-choque e lhe retribuir o gesto, mas para mim aquilo durou minutos infinitos.

“Tudo bem?”. Você perguntou enquanto ainda me abraçava.

“Tudo… E você?”. Minha voz saiu meio fraca, como se eu estivesse tentando preservar um pouco de fôlego depois de correr uma maratona. Até deixei o livro cair.

O barulho foi o suficiente para fazer com que você percebesse a demora do seu abraço, e então se afastou.

“Tudo bem”, finalmente respondeu enquanto se abaixava para pegar o livro caído no chão. Tudo isso sem perder o constante contato visual comigo. Era como se suas amêndoas me escaneassem e tentassem ler tudo o que você havia perdido nesses dois anos em que estivemos afastados.

De novo, ficamos nos encarando, como se não existisse mais ninguém além de nós na livraria. Analisei o seu rosto. Nada havia mudado nele. Fiquei feliz. Outro indício de que talvez nosso afastamento fosse só um pesadelo e que aqueles dois anos nem tinham existido. Por que foi que nos afastamos, mesmo?

Meu devaneio foi interrompido quando você esticou a mão direita para entregar o livro.

“Distraída como sempre.”

Você deu um sorriso fraco antes de se afastar, e toda aquela situação me frustrou. Você não havia sentido nada, afinal.

Abaixei meus olhos, ligeiramente decepcionada. Foi quando percebi um papel se sobressaindo no meio do livro. Puxei-o instintivamente, e para a minha surpresa, reconheci aquela letra corrida e levemente inclinada:

 

“Ainda sinto sua falta.

 

Meu número ainda é o mesmo, caso tenha se perguntado.”

 

Não consegui evitar um riso baixo enquanto meu coração acelerou.

Estava tão distraída que nem percebi quando ele colocou aquele papel dentro do livro enquanto nos encarávamos.

Distraída e sempre.

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