Ninguém é obrigado

Em 24.08.2016   Arquivado em Crônicas, Off topic, Por aí

Dia desses um amigo fez aquela pergunta que todo mundo responde em algum momento da vida: “Você já se decepcionou com as pessoas? Com o amor?”

Sabe aquele silêncio ensurdecedor que paira no ar nos momentos mais inesperados? Pois é.

Fico me perguntando até agora por que diabos minha voz ficou entalada na garganta e eu não consegui dar a resposta que já estava na ponta da língua. Vai ver é aquele medo de se expor que no fundo todo ser humano tem. Aquele medo de se mostrar frágil. De se mostrar quebrável.

E mesmo depois da conversa fiquei com aquela pergunta ecoando nos meus ouvidos quando deitei a minha cabeça no travesseiro. Porque eu tinha mesmo a resposta na ponta da língua.

Afinal de contas, acho que todos nós um dia já sofremos e nos decepcionamos. Dentro e fora do amor. E comigo, claro, não seria diferente.

Sabe por que nos decepcionamos? Porque esperamos demais das pessoas. Achamos que só porque somos capazes das loucuras mais absurdas quando gostamos de alguém (não só no amor, mas também na amizade), só porque nos entregamos demais, achamos que as pessoas têm a mesma obrigação conosco. Que o sentimento precisa ser mútuo.

Só porque eu já cansei de largar minhas obrigações pra socorrer uma amiga que tá com dor de amor e passar a madrugada com ela vendo filmes, comendo gordices e aconselhando, não significa que essa amiga irá fazer o mesmo por mim. Só porque eu abri mão de sonhos para estar ao lado de um grande amor, não significa que esse grande amor fará o mesmo por mim. Conseguem entender?

As pessoas nem sempre fariam o mesmo por nós. E é aí que mora a polêmica! Sabe aquela famosa frase da sociedade contemporânea dos memes malucos? “Eu não sou obrigada!”? Pois é, ninguém é obrigado a ser recíproco. E isso deveria ser completamente aceitável.

Só que não é. Em se tratando do ser humano, não é. Somos egoístas mesmo sem querer. Queremos aquilo que as pessoas são incapazes de nos oferecer. E nem é culpa delas, sabe? Como elas vão oferecer algo que não têm?

Meu pai sempre me dizia isso e eu demorei muito pra entender. Confesso que até hoje ainda me custa aceitar, mas é a mais pura verdade. Precisamos parar de esperar demais das pessoas e a ser tão dependentes delas. Se aquilo é o que elas têm para oferecer e não lhes é o suficiente, então talvez seja hora de deixar pra lá, não acham? Afinal de contas… Nós também não somos obrigados a viver com pouco, viver de miséria. Isso mesmo. Não somos obrigados. Ninguém é.

Saindo dos trilhos

Em 21.09.2015   Arquivado em Crônicas

Trem

Skinny Love – Birdy

Aí vem o trem que me levará a outra direção. Tudo o que eu carrego é uma mala onde eu acredito estar a minha vida. Isso depois de uma história muito mal resolvida.

É uma história sobre o momento em que deixo de ser alguém com quem você realmente se importa.

Sempre achei que fosse pra sempre, sabe? Eu e você. Mas acho que essa ideia boba mudou quando eu comecei a arrumar a minha mala e vi que você apenas ficou encostado no batente da porta, assistindo àquilo. Eu tentei juntar minhas coisas até que devagar, na esperança de você me pedir pra ficar.

Idiota. Acho que essa história é mais sobre como fui idiota do que sobre nós. Tantas mentiras, tantas traições… E eu ainda preferia uma vida com você do que uma vida comigo mesma.

Começo a ter aqueles questionamentos que eu deveria ter tido durante todo o nosso relacionamento. Você me amou? Você realmente segurou a minha mão para me salvar ou me atirar no precipício em que estou?

Pena que eu só percebi tudo isso agora, sentada no banco enquanto espero o trem mais demorado da minha vida. O trem que finalmente me fará mudar de estação. E então eu darei aquele passo que eu deveria ter dado há muito tempo. Aquele que me fará ir embora sem olhar para trás, a fim de uma nova vida. Uma vida sem você.

Aí vem o trem.

Sempre Quase

Em 01.05.2015   Arquivado em Crônicas

 

SempreQuase2

Você disse que seríamos o que quiséssemos. Então segui o meu caminho por aquela viela úmida, em busca do que eu queria ser. Mesmo que eu não soubesse de fato o que eu queria. A garoa era fraca, mas não deixava de fazer o seu trabalho de molhar o asfalto.

A única coisa que eu sabia era que eu não queria um tempo. Essa história de “dar um tempo” é apenas uma desculpa. Uma maneira de fazer com que os dois se acostumem com o fato de que não estarão mais juntos.

Saí andando por entre aquela multidão de pessoas que passam apressadas todos os dias pelas ruas e que acabam se tornando minúsculas diante do grande fluxo de vidas que por ali passam.

Me senti sufocada naquela maré de gente pela qual eu tentava passar. O ritmo caótico nunca foi o meu preferido. O caos faz com que as pessoas deixem de perceber umas as outras mesmo que elas estejam próximas. A sensação de parecer sozinha em meio a tantas pessoas fez a minha garganta prender um soluço.

Você disse que jamais me sentiria sozinha. Que estaria sempre aqui para me amparar. E por que só o que eu sinto agora é um vazio que domina cada terminação nervosa do meu corpo?

Olhei pra cima quando senti os pingos de chuva engrossarem. Senti meu cabelo grudar na pele enquanto a água do céu se encarregava de tocar o meu rosto e me dar boas-vindas. Fiquei ali enquanto percebia que as pessoas ao meu redor começavam a se abrigar abaixo de algum guarda-chuva.

Você disse que não importa o quão forte é a chuva, pois o sol sempre vem. Então por que sinto que só que o verei agora é o mesmo céu cinza que me encara? Por que sinto que a chuva será como uma melhor amiga que derrama lágrimas comigo?

Parei de olhar pra cima quando alguém trombou no meu ombro na pressa de passar por mim.

“Por que não sai do caminho?”, murmurou. Porque não sei qual é o meu caminho, minha mente respondeu.

Você disse que caminharíamos juntos, lado a lado. Mas olho para o lado e você já não está. Mordo o lábio tentando lembrar em que momento fomos para lados opostos. Mas não consigo me lembrar.

Você disse que era pra sempre. Mesmo que o “sempre” não existisse.  Mesmo que não houvesse mais estrelas. Mesmo que as estações não existissem. Mesmo que o azul do céu não se fundisse mais com azul do mar no horizonte e não nos desse mais aquela sensação de sermos infinitos.

Mas as estrelas continuam no céu. As estações ainda existem. O azul do céu continua sendo o mesmo azul do mar, fazendo-me infinita todos os dias e todas as noites. Você é o único que não cumpriu a promessa quando disse “pra sempre”. Como sempre.

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