Ninguém é obrigado

Em 24.08.2016   Arquivado em Crônicas, Off topic, Por aí

Dia desses um amigo fez aquela pergunta que todo mundo responde em algum momento da vida: “Você já se decepcionou com as pessoas? Com o amor?”

Sabe aquele silêncio ensurdecedor que paira no ar nos momentos mais inesperados? Pois é.

Fico me perguntando até agora por que diabos minha voz ficou entalada na garganta e eu não consegui dar a resposta que já estava na ponta da língua. Vai ver é aquele medo de se expor que no fundo todo ser humano tem. Aquele medo de se mostrar frágil. De se mostrar quebrável.

E mesmo depois da conversa fiquei com aquela pergunta ecoando nos meus ouvidos quando deitei a minha cabeça no travesseiro. Porque eu tinha mesmo a resposta na ponta da língua.

Afinal de contas, acho que todos nós um dia já sofremos e nos decepcionamos. Dentro e fora do amor. E comigo, claro, não seria diferente.

Sabe por que nos decepcionamos? Porque esperamos demais das pessoas. Achamos que só porque somos capazes das loucuras mais absurdas quando gostamos de alguém (não só no amor, mas também na amizade), só porque nos entregamos demais, achamos que as pessoas têm a mesma obrigação conosco. Que o sentimento precisa ser mútuo.

Só porque eu já cansei de largar minhas obrigações pra socorrer uma amiga que tá com dor de amor e passar a madrugada com ela vendo filmes, comendo gordices e aconselhando, não significa que essa amiga irá fazer o mesmo por mim. Só porque eu abri mão de sonhos para estar ao lado de um grande amor, não significa que esse grande amor fará o mesmo por mim. Conseguem entender?

As pessoas nem sempre fariam o mesmo por nós. E é aí que mora a polêmica! Sabe aquela famosa frase da sociedade contemporânea dos memes malucos? “Eu não sou obrigada!”? Pois é, ninguém é obrigado a ser recíproco. E isso deveria ser completamente aceitável.

Só que não é. Em se tratando do ser humano, não é. Somos egoístas mesmo sem querer. Queremos aquilo que as pessoas são incapazes de nos oferecer. E nem é culpa delas, sabe? Como elas vão oferecer algo que não têm?

Meu pai sempre me dizia isso e eu demorei muito pra entender. Confesso que até hoje ainda me custa aceitar, mas é a mais pura verdade. Precisamos parar de esperar demais das pessoas e a ser tão dependentes delas. Se aquilo é o que elas têm para oferecer e não lhes é o suficiente, então talvez seja hora de deixar pra lá, não acham? Afinal de contas… Nós também não somos obrigados a viver com pouco, viver de miséria. Isso mesmo. Não somos obrigados. Ninguém é.

A praga que é te esquecer

Em 31.07.2016   Arquivado em Crônicas

Ouça: Like a Fool – Keira Knightley

É engraçado como acreditamos no poder de certas atitudes para esquecer alguém. Quer dizer… Eu acreditei de verdade que apagando suas fotos das minhas redes sociais… Ou rasgando aquelas outras do mural fariam eu simplesmente esquecer que você já esteve na minha vida.

Eu também acreditei que deletando as músicas do meu iPod – aquelas que costumávamos escutar dividindo o fone de ouvido enquanto ficávamos deitados na sua cama olhando as estrelas pela janela – também deletariam você da minha memória.

Tive certeza absoluta que ia esquecer completamente as noites que você dormiu na minha cama trocando os móveis de lugar e dando embora os objetos de decoração que você me deu – e que eu adorava tanto.

Doei até mesmo as roupas que você me deu. Ou aquelas que você gostava que eu vestisse. Lembra aquele vestidinho azul, o meu preferido? Dei embora com muita dor no coração, só porque você dizia que eu ficava incrível nele.

E seu nome? Fiz minhas amigas banirem do nosso vocabulário. Fizemos um pacto e toda vez que alguém citar o seu nome, perde dez reais. E mesmo assim, adivinha quem é a que perdeu mais dinheiro? Se apostou em mim, acertou. Acertou em cheio.

Aliás, você me acertou tão em cheio que eu já nem sei mais quem sou. Fico me perguntando o que mais eu tenho de fazer pra tirar você da minha vida, dos meus pensamentos, dos meus lábios, dos meus sonhos. Já me peguei rezando à noite, pedindo a Deus que me livrasse das memórias que me levam até você. Já me peguei torcendo pra que aquele tratamento de esquecimento do filme “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” – aquele filme que assistimos juntos, lembra? – existisse, porque eu certamente aceitaria passar pelo processo. Eu aceitaria qualquer remédio, qualquer macumba, qualquer droga que substituísse o vício que você se tornou na minha vida.

Daria tudo por uma noite bem dormida, um sonho que só fosse meu, um pensamento que só fosse sobre mim, uma música que me lembrasse a mim. Daria um dos meus rins se dissessem que isso funcionaria.

Já tentei tudo o que é possível pra te esquecer. E mesmo assim, continuas muito vivo em minha memória. Eu lembro de tudo. Lembro até mesmo do timbre da sua voz enquanto andava de costas me encarando no meio daquele parque e me ordenava que eu fizesse o que eu tenho tentado fazer durante todo esse tempo: “Me esquece.

Do que sei sobre o amor

Em 15.06.2016   Arquivado em Crônicas

amor

Ouça: Like I’m Gonna Lose You – Meghan Trainor ft. John Legend

 

Eu não sei. Tudo o que eu consigo fazer quando tento nos explicar pra alguém é sorrir.

Eu poderia até me fazer de difícil contigo, poderia bancar a irritadinha que sempre fui e simplesmente não dar o braço a torcer. Porque eu… Eu nunca fui de me entregar assim, de primeira. Comigo tudo sempre foi um jogo, sempre foi na base das entrelinhas, das indiretas.

Só que com você isso simplesmente nunca aconteceu. Com você não existe joguinho, não existe armas de ataque e defesa. Eu nunca precisei mentir ou omitir o que sinto e penso. E isso é, sem dúvida, o que eu mais amo na gente – dentre tudo o que existe na gente e que eu amo tanto.

Aliás, amo tudo na gente. Amo como eu me perco no verde dos olhos mais brilhantes que já cruzaram os meus. Amo como sua mão encontra o meu rosto com facilidade e a maneira como meu corpo reage ao seu simples toque. Amo como a minha mão se encaixa na sua.

Amo como me sinto completa e inteira ao seu lado. Como não preciso mentir nem fazer média contigo.

Amo a maneira como os cantos dos seus lábios se curvam pra baixo quando eu digo algo que te surpreende. Amo o som da sua risada e como você sempre dá uma encolhidinha nos ombros pra rir, como se fosse uma criança.

Amo quando me puxa pra si como se não precisasse de mais ninguém por perto. Amo como até o timbre da sua voz muda rapidamente quando você está conversando com alguém e de repente está falando comigo. Amo o zelo que emana do seu olhar quando está me observando.

Amo o jeitinho cúmplice que me olha quando estamos no meio das pessoas. Como nos entendemos só com um olhar. Amo quando você faz aquela carinha de sem vergonha e não pode comentar o que tem vontade.

Amo sua feição de sono lutando pra não dormir. Amo como não tem vergonha de mostrar que precisa de mim e me quer por perto. Amo como você nunca escondeu o que sente perto dos seus amigos. Amo como soamos tão natural perto das pessoas. Amo nossas piadas e nosso jeito de provocar um ao outro. Amo quando soltamos farpinhas e logo nos redimimos porque não queremos errar com o outro, não queremos repetir erros de relacionamentos passados. Amo quando diz “nossa casa/nosso quarto/nossa cama” em uma frase. Amo quando você fala sobre uma vida juntos.

Amo o som do seu “R”. Amo quando me chama de chatice. Quando me chama de guria então…! Perco o chão. Aliás, quer me ver perder o ar? É só dizer “nossa, você me deixa louco, guria” com a voz um pouquinho rouca e dar aquela estreidadinha no olhar da maneira que você faz.

Amo como você nunca teve medo de demonstrar ou dizer o que sentia, desde aquela noite, naquele parque. Amo como você me mostra como sua “fraqueza”, como você amolece e não se importa com isso.

Amo o jeito como me aperta contra seu corpo. O jeito como me prende. Amo como o seu corpo se encaixa e se molda ao meu. Amo o desejo que emana do seu olhar quando estamos só eu e você. Amo como a minha pele parece queimar quando você me toca. Quando você diz que sou linda e o quanto me deseja. De que sou a melhor e não existiu nenhuma como a mim. De que sou única.

Amo cada parte de ti que chega a doer, garoto.

Eu. Amo. Te. Amar.

Metades por inteiro

Em 21.03.2016   Arquivado em Crônicas

MetadesPorInteiro

Amei Te Ver – Tiago Iorc

 

Eu deitei pra dormir, eu juro.

Mas quando você tá apaixonada, não é deitar e dormir. Porque de repente, a primeira coisa que vem no seu pensamento é aquele sorriso, aquele olhar que faz o seu coração bater rápido e o mundo ficar em câmera lenta.

Dizem que nada é por acaso. E acho que eu nunca pude comprovar uma teoria tão na prática como quando você cruzou o meu caminho e mudou o meu mundo.

Você chegou sem avisar com esse jeito marrento e irreverente. Nem pediu licença e por aqui foi ficando. E a cada dia que passava, você conquistava mais um pedacinho de mim. A cada dia, o que era uma trivialidade começou a se tornar necessidade. E não vou nem dizer que ganhamos intimidade porque parece que isso existe desde sempre entre a gente. Como se nos conhecêssemos de outras vidas. Essa é a única conclusão na qual eu pude chegar depois de tanto matutar. Foi o encontro de duas almas que estavam à procura, uma da outra. E a coincidência, o acaso, ou o destino – chame do que preferir -, nos colocou frente a frente, na 42 com a 8ª avenida.

Eu não sei o que aconteceu. Nem mesmo como. Há uma porção de coisas no mundo que até hoje não temos as respostas. E dentre os mistérios do universo e dos sete mares, com certeza podemos encontrar um espacinho para encaixar a nossa história.

Uma história que modéstia à parte, é digna de um livro com direito a reprodução cinematográfica. Que faz qualquer um suspirar e ficar boquiaberto com o nosso desenrolar. E eu, que sempre quis escrever uma história arrebatadora e de tirar o fôlego… Ironicamente a estou escrevendo. Mas com a sua ajuda.

E sim, eu disse que você chegou sem pedir licença, mesmo. E no começo eu achei que fosse pra bagunçar tudo. Demorou alguns dias até eu perceber que na verdade já estava uma bagunça, e que você estava ali, na realidade, pra colocar no lugar. E então, do meu coração… Você fez tua morada.

Eu já me perguntei o que diabos estava acontecendo. E eu juro que tentei entender… Mas depois de um tempo, eu simplesmente parei de tentar e passei a aceitar… Que eu estou honestamente, verdadeiramente e completamente apaixonada por você. De todas as maneiras que alguém pode se apaixonar. Aliás, você me conquistou de todas as maneiras que alguém pode conquistar uma pessoa. Dos pés à cabeça, de dentro pra fora e de fora pra dentro.

Você me faz acreditar que o próximo dia sempre vale à pena. Que pra tudo sempre existe uma solução. E que o amor… O amor sempre vence. Sempre. Sempre. Sempre.

Eu não vou mentir. Aliás, acho que essa palavra nem existe no nosso vocabulário. Já lhe disse e não foi uma… Não foram duas nem três vezes: eu estou com medo. Medo do que seremos e se seremos. Não é do julgamento e nem das más línguas. É daquilo tudo que não enxergamos, mas que existe. O tempo, a distância, a saudade.

Sou daquelas que sofre por antecipação e sente dor antes mesmo de levar a pancada. Talvez seja culpa das surras que a vida já deu, quem sabe. Só não digo que isso faz parte da minha natureza porque venho aprendido o contrário contigo. Quero que a gente dê certo. Quero fazer certo e quero você, de certo. E sei que você também me quer, pois somente um louco faria tudo o que fizeste até agora se não quisesse. Por isso, me apoio nas suas atitudes. Porque todo dia que acordei com a dúvida de saber se conseguiríamos passar por isso, você esteve ali, me provando que sim. E eu sei que você o fará quantas vezes mais forem necessárias, por querer e sem querer.

E eu só espero que a gente vença esse obstáculo. Aliás, espero que esse seja o único grande obstáculo que irá nos separar por um tempo.

Que o desejo seja realizado; que o vazio seja preenchido; que o sentimento cresça; que a distância se encurte; que as horas não nos afaste; que as metades sejam por inteiro.

Me espera.

Um pedaço de papel

Em 29.11.2015   Arquivado em Crônicas

Umpedaçodepapel

Like Real People Do – Hozier

Foi uma daquelas noites. Aquela em que você sai com a sua melhor amiga porque ela simplesmente precisa daquele momento depois de um fora básico.

Aí você a leva em um lugar diferente de tudo o que estão acostumadas.

A bebida é de graça, já que você é amiga de uns trezentos e tantos promoters que te colocam pra dentro e praticamente te bancam. É até divertido.

Bebemos como se não o houvesse amanhã e MILAGROSAMENTE estamos sãs o suficiente pra chegar em casa. Pelo menos é o que esperamos.

O problema é cada uma vive em um lado da cidade, e haverá um certo momento em que será só você e… Deus. De noite, naquelas ruas mal iluminadas e que são dignas de filmes de terror.

Aí eu pego o metrô sozinha torcendo pra acertar o caminho de casa. Não que eu esteja exatamente bêbada. Mas “alegre” já é o suficiente pra se perder, certo? Certo.

Eu só sento no banco. Aparento estar tranquila e certa do que estou fazendo, mas acho que não é bem isso.

Continuo a mascar meu chiclete e bancar a garota da cidade, porque sim.

Então eu o vejo. Cabelos perfeitamente penteados para o lado como se tivessem acabados de ser moldados daquela maneira. A camisa social branca com alguns detalhes para dentro da calça escura igualmente bem passada.

É simplesmente impossível não notá-lo ao lado do amigo de trabalho. Pergunto-me o que diabos eles estão fazendo em pleno final de semana enquanto eu simplesmente estou voltando de uma noitada com uma amiga que precisava ser animada.

Eu não sei se é o álcool ou se eu simplesmente queria que ele me notasse. Só pra constar que eu costumo ser o tipo mais discreto normalmente.

O problema é que simplesmente não consigo. Olho-o insistentemente até que ele sinta que está sendo observado dentro do vagão lotado – se considerado o horário.

Então ele finalmente me olha. Juro que se não estivesse sentada minhas pernas vacilariam quando os meus olhos encontraram os dele. Tão incrivelmente claros e hipnotizantes…

Não eram verdes. Não eram azuis. Talvez um meio termo entre o paraíso e o inferno?

Eu o encarei tanto que foi impossível não me notar. Acho que até mesmo um cego me notaria. Se eu não estivesse levemente alterada, estaria me xingando por isso. Aliás, eu nem o teria feito.

Talvez eu me sentisse constrangida. Talvez ELE se sentisse constrangido.

Mas tudo o que ele fez foi me encarar de volta. Talvez surpreso com a minha “ousadia”, talvez tentado para ver o que poderia acontecer.

Então ele sorriu e acenou discretamente. E eu fiquei tão ou mais surpresa. Tudo o que consegui fazer foi sorrir de volta como se debochasse da atitude impensada dele de acenar para uma desconhecida – embora eu tivesse adorado.

Virei o rosto e fingi me concentrar na janela escura que não mostrava nada além da escuridão dos túneis que engoliam o metrô.

É claro que continuei a observá-lo pelo reflexo. Ele fez o mesmo, e aquilo fez com que um sorriso fraco me escapasse dos lábios.

A estação na qual eu desceria já estava bem próxima, e eu sabia que talvez aquela fosse a primeira e última vez que eu o veria. Então eu fiz algo que eu com certeza não faria em estado normal.

Mais do que rapidamente, peguei um papel jogado na minha bolsa e o meu lápis de olho. Escrevi uma série de números em um garrancho de possível entendimento. Quando ouvi a voz abafada da caixa de som do metrô anunciar a minha estação, cruzei o outro lado do vagão.

Ele me olhou de cima abaixo surpreso com a minha presença. Meus olhos se prenderam nos dele enquanto a minha mão rapidamente se esticava em direção ao bolso direito da camisa dele, na altura do tórax. Enfiei o papel ali sem perder o contato visual.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa ou eu me arrepender do que tinha acabado de fazer, avancei em direção da saída. Quando olhei para trás, o vi me encarando com um pequeno sorriso nos lábios enquanto as portas se fechavam. Eu sorri de volta e tomei o meu caminho.

Triste felicidade

Em 10.11.2015   Arquivado em Crônicas

triste-felicidade

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Como fingir a dor que se sente de verdade, Fernando Pessoa?
No auge de tudo o que já vivi (e vivo), nunca consegui essa proeza. A grosso modo, não consigo sequer escrever uma “autopsicografia¹” quando estou feliz. Deprimente, não?
Soará estranho dizer, mas ouso ficar feliz de estar triste, pois só assim sou capaz de deixar que um lápis ganhe vida em minha mão e passe a dizer o que se passa em meu coração.
Talvez me deixe feliz saber que mesmo triste, ao concluir essas linhas, alguma coisa boa tirarei daquela tristeza. Pois ao passo de que vou escrevendo, vou me entendendo. Ao passo de que vou escrevendo, talvez não saia só rabiscos e palavras desconexas. Se olhar atentamente, verás a tristeza se esvaindo de mim, dando um até logo, como se voltasse em breve, com a tal dor de Fernando Pessoa.
Enquanto isso, eu sorrio para as minhas queridas amigas: as palavras que nunca me faltam.

1. Pode ser entendida como “escrita automática da própria alma”;

A farsa da Mulher-Maravilha

Em 04.11.2015   Arquivado em Crônicas

mulhermaravilha

Wondergirl – Hey Monday

Você já sentiu como se não fizesse parte do seu próprio mundo? Se a resposta é sim, então acho que sabe do que estou falando. Se a reposta é não, acho que vai passar a entender agora.

Durante todo esse tempo, eu apenas tentei não decepcionar ninguém. Afinal de contas, sempre depositaram fé em tudo o que eu me prontificava a fazer. Fé até demais.

Sem querer, fui criando uma imagem de que eu era mesmo uma pessoa incrível e célebre. A mais inteligente da turma, a melhor companhia para festas, o melhor ombro para chorar, o melhor ouvido para desabafar.

E quando eu percebi, era tarde. Já era o “Sonho Americano” de todos os que me rodeavam. E sabe de uma coisa? É um saco! As pessoas sempre esperam que você não erre. Porque você é perfeita. Porque você foi criada para não cometer erros. E quando os comete, é como se o mundo desmoronasse.

Eu não deveria me sentir mal por isso. Mas me sinto. Porque não posso apenas jogar tudo para o alto, não posso me desligar do mundo, sumir das redes sociais e colocar o celular no modo avião. Não posso encher a cara e acordar no tapete de uma casa onde passei a noite inteira festejando. Não é simplesmente assim que as coisas funcionam.

Não sou nada do que os outros pensam que eu sou. Ninguém me conhece. Nem eu me conheço! Dizem que gastamos uma vida toda para conhecermos a si mesmos, e que algumas pessoas sequer conseguem cumpri-lo. Frustrante, eu sei.

Eu posso ser forte, mas não sou invencível. Só queria que as pessoas parassem de me colocar num pedestal e depositassem toda a fé que lhes restam em mim. Ser a Mulher-Maravilha não vai me salvar.

Eu sou só uma menina. Uma menina tentando se encaixar no seu próprio mundo.

Ponte

Em 12.10.2015   Arquivado em Crônicas

Ponte

This Love – Taylor Swift (Cover by Melanie Ungar)

Eu só fui. Acho que é uma daquelas coisas que você tem que fazer sem pensar nas consequências, sabe? Algumas coisas simplesmente acontecem.

E eu fiz. Liguei pra um cara com quem conversei uma única vez porque simplesmente precisava de alguém que pudesse estar comigo em uma terça-feira fria típica de uma noite de outono em New York.

E o mais maluco foi vê-lo chegar enquanto eu estava sentada no banco no qual conversamos por acaso em uma outra noite sem sentido na Brooklyn Bridge. E aquela era apenas mais uma noite sem sentido.

Pelo menos foi o que eu finalmente concluí quando ele parou de pé ao lado do banco. Jaqueta de couro e calça jeans. Sneakers da Nike nos pés. Também tinha um cachecol desajeitado no pescoço. As mãos estavam nos bolsos enquanto ele me encarava quase que eternamente.

Eu o encarei de volta e fiquei pensando no que o havia feito ir até lá. Nós nem éramos amigos! É verdade que tínhamos algumas aulas juntos na New York University, mas não é como se isso significasse algo já que nem nos falávamos. Pelo menos até aquela noite maluca em que acabamos conversando depois de fugir de uma festa em que a polícia acabou aparecendo.

E quando eu finalmente analisei toda a situação e comecei a considerar a me jogar da ponte por ter feito a besteira de ter ligado e me sentir a pessoa mais idiota do mundo, ele se jogou ao meu lado, se esparramando no banco e deixando as pernas bem relaxadas enquanto fingia que não via o caminho que as lágrimas secas fizeram no meu rosto.

O engraçado é que eu poderia ter ligado pra qualquer pessoa. Qualquer mesmo. Tenho certeza que qualquer uma das minhas amigas teriam vindo no mesmo momento. O problema é que quando eu destravei o meu celular e deslizei o dedo pela minha lista de contatos o primeiro nome que meus olhos encontraram foi o dele: Dylan.

Quer dizer… Ele é um cara legal. Pelo menos foi o que me pareceu quando estávamos conversando daquela vez. E eu posso afirmar isso com certeza – já eu não havia bebido naquela noite porque aquela era a vez da minha amiga encher a cara e eu ser a responsável da vez. E ele não havia bebido porque… Simplesmente não sei o por quê.

Ele suspirou enquanto passava a encarar o rio East, que de noite parecia um grande tapete escuro refletindo as luzes que Manhattan emitia imponentemente do outro lado da ponte. Eu estava esperando que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Mas a única coisa que ele fez foi molhar os lábios algumas vezes.

E aquilo meio que me irritou, sei lá.

– Não vai dizer nada? – perguntei tentando fazer com que a minha voz não soasse trêmula.

– Eu deveria? – ele respondeu com outra pergunta, dando um sorriso torto. Continuou a encarar o rio.

– Sei lá… Eu te fiz sair do dormitório dez e meia da noite em uma terça-feira fria pra vir até a Brooklyn Bridge. – ele finalmente me encarou franzindo a testa. – Qual é… Não é algo que uma pessoa faria normalmente. Quer dizer… Nós nem somos amigos.

Ele riu fraco.

– É… Confesso que achei estranho. Mas e daí?

– Você não tinha algo melhor pra fazer, né?

– Eu poderia estar jogando videogame agora. Ou dormindo.

Dessa vez fui eu quem riu fracamente.

– E não vai me perguntar o por quê disso tudo?

– Você esteve chorando. – ele pontuou rapidamente. Encolheu o corpo quando sentiu um vento mais cortante passar por nós. Eu fiz o mesmo.

Assenti em resposta e ele não disse nada.

– Não vai perguntar o que houve?

– Não sei se é algo que você realmente quer que eu faça. Já teria me contado antes se quisesse. – era verdade. – Você só precisava estar com alguém, não é? – aquilo me fez ficar em silêncio porque não sabia que resposta dar sem parecer uma garota idiota. – E eu estou aqui.

Nesse momento percebi que estávamos nos encarando. Meus olhos estudaram a expressão simples e amena que ele carregava. Ele sempre a tinha no rosto. Era como se nada fosse capaz de tirá-lo do sério. Era como se ele fosse capaz de lidar com qualquer coisa. E naquele minuto eu concluí que talvez esse fosse um dos motivos que me fez ligar pra ele.

Aquilo me fez questionar o por quê de eu nunca ter falado com ele antes daquela noite. Ele simplesmente esteve ali naquela noite, e tenho que confessar, foi divertido. Era como se nos conhecêssemos a vida toda. A verdade é que ele esteve durante todo aquele tempo… E agora ele estava aqui comigo sem cobrar qualquer explicação prudente.

Eu poderia ter agradecido. Eu poderia ter continuado aquela conversa. Poderia até mesmo contar o por quê de tudo aquilo. Mas tudo o que eu fiz foi depositar a minha cabeça no ombro dele.

Eu precisava. Ele estava lá. E as coisas… Elas simplesmente acontecem.

 

Apenas diga “sim”

Em 29.09.2015   Arquivado em Crônicas

ApenasDiga

Your Song – Ellie Goulding

Sempre disse que não tinha medo de nada. E eu parecia mesmo ser dura na queda, mas não se engane. O enfeite da estante também parece ser intocável. Até que alguém o derrube e o deixe em pedaços.

Por muito tempo consegui manter essa pose de que nada nem ninguém fosse capaz de me atingir. O problema é que tenho essa mania de controlar tudo, sabe? Muitas vezes brigo comigo mesma sobre como quero me sentir, em vez de simplesmente observar como estou me sentindo.

E então você apareceu, como uma bomba que explode e leva tudo o está por perto aos ares. Fui para as nuvens e não consegui mais descer. Acho que acabei gostando mais da vista daqui de cima.

Percebi que já não queria mais ser sozinha como eu costumava ser – e gostava de sê-lo. – Fica difícil você não querer amar quando já o faz. É como uma droga quando se mistura com o sangue. Vira uma coisa só.

Talvez tenha sido o jeito com que você chegou em mim, imponente, como se já soubesse que eu me renderia. Eu, que sempre fui difícil de me surpreender, já estava com um sorriso bobo nos lábios. Eu, que sempre dizia não, agora estava dizendo sim.

E continuo a dizer “sim” cada dia que você faz alguma coisa que realmente me irrita e me faz não querer olhar na sua cara nunca mais; e aí você aparece na porta da minha casa com um buquê de flores e aquela cara de cachorro abandonado pedindo perdão. E eu simplesmente esqueço o motivo pelo qual eu estava brava.

Continuo dizendo o mesmo “sim” quando digo que entre um casal sempre há um que ama mais. Aí você diz que não tem ninguém que ame mais do que você, assim, sem medidas. E então você abre os braços de uma maneira esquisita. Eu pergunto: “Quer abraçar o mundo?”. Você me abraça forte e responde: “Já estou abraçando. Você é o meu mundo.”

Como ser dura na queda se já estou caindo de amores desse jeito? Como dizer “não” quando tudo é tão “sim”?

Sim, eu te amo. E sim, eu quero que fique.

Você fica?

Saindo dos trilhos

Em 21.09.2015   Arquivado em Crônicas

Trem

Skinny Love – Birdy

Aí vem o trem que me levará a outra direção. Tudo o que eu carrego é uma mala onde eu acredito estar a minha vida. Isso depois de uma história muito mal resolvida.

É uma história sobre o momento em que deixo de ser alguém com quem você realmente se importa.

Sempre achei que fosse pra sempre, sabe? Eu e você. Mas acho que essa ideia boba mudou quando eu comecei a arrumar a minha mala e vi que você apenas ficou encostado no batente da porta, assistindo àquilo. Eu tentei juntar minhas coisas até que devagar, na esperança de você me pedir pra ficar.

Idiota. Acho que essa história é mais sobre como fui idiota do que sobre nós. Tantas mentiras, tantas traições… E eu ainda preferia uma vida com você do que uma vida comigo mesma.

Começo a ter aqueles questionamentos que eu deveria ter tido durante todo o nosso relacionamento. Você me amou? Você realmente segurou a minha mão para me salvar ou me atirar no precipício em que estou?

Pena que eu só percebi tudo isso agora, sentada no banco enquanto espero o trem mais demorado da minha vida. O trem que finalmente me fará mudar de estação. E então eu darei aquele passo que eu deveria ter dado há muito tempo. Aquele que me fará ir embora sem olhar para trás, a fim de uma nova vida. Uma vida sem você.

Aí vem o trem.

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