Nós – Parte II

Em 02.04.2015   Arquivado em Crônicas

 

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Ele

Oi, baixinha. Pensei em muitas maneiras de começar essa carta. Resolvi fazer como você, e escrever em frente ao mar. Me surpreendi, porque eu realmente me senti próximo de você. Como se pudéssemos nos ver, acenar um para o outro, ou até mesmo nos tocar.

Ainda não me acostumei com o tempo daqui. Diferente de você, odeio o frio. Mesmo estando no verão, ainda é gelado. Aí me peguei lembrando de como eu ficava irritado quando você dizia “Ora, o frio é psicológico.” Em seguida, você ria sem parar da carranca que se formava no meu rosto. E eu realmente sinto falta disso.

Ainda pela manhã estava um pouco chateado com a briga que tivemos ontem à noite no telefone. Sei que já nos resolvemos, mas toda vez que brigamos acabo me sentindo preso nessas 4 horas de fuso horário que nos separam. E doi.

Nós dois sabemos que isso tudo não tem sido fácil. A distância e o tempo catalisam discussões e conflitos que jamais aconteceriam em CNTP (Condições Normais de Temperatura e Pressão). Aposto que arranquei um sorriso de você, agora.

Apenas peço que não desista de nós, meu amor. Infelizmente tive que buscar algo do outro lado do mundo, e você não pôde vir comigo. Mas não pense que está sendo assim tão fácil pra mim. Já estou em um ponto em que tudo me faz lembrar do seu jeito e de como era bom dormir e acordar contigo. De como a sua risada se misturava com a minha e parecia uma música nossa. Só nossa.

Não tenha medo. A distância só fez com o que o nosso amor se estendesse até o outro lado do mundo. Continuamos ligados. Eu estou aqui, mas meu coração está aí, onde sempre irá ficar. Com você, seja onde for.

É verdade que as duas cidades são cinzas e parece que tudo se entristeceu. Então te peço apenas uma coisa: Sorria. Continue a sorrir, meu amor. Porque é isso que traz cor ao meu mundo. Sorria enquanto não chega o dia de você vir para se juntar a mim.

Então seremos você e eu.

Nós.

Nós – Parte I

Nós – Parte I

Em 31.03.2015   Arquivado em Crônicas

 

nós

Ela

Está frio onde você está? Já dá pra contar as estrelas do céu? Afinal, são 9 mil quilômetros de distância e 4 horas de diferença no solstício. Aposto que aí ainda nem anoiteceu.

Hoje foi o dia mais frio dos últimos vinte anos aqui na cidade, sabia? Estou te contando isso porque… Você sabe, eu amo o inverno. Só que… Chegou um momento em que eu já não sei se o frio que estou sentindo é porque está fazendo 8º ou porque falta você do meu lado.

Estou sentada aqui na encosta do mar com James Blunt estourando nos meus ouvidos. E se eu fechar os olhos enquanto lhe escrevo esta carta, tenho certeza que posso escutar você dizendo: “James Blunt é um cara que respira sofrimento. Você gosta de sofrer, né, amor?”. Eu acho que gosto, mesmo. Gosto de ser intensa, de sentir até que tudo escape do meu peito. E no momento o que me escapa é essa saudade que eu tenho de você.

E sentada aqui no limite desta terra, me flagro encarando o horizonte do mar, imaginando se você está fazendo o mesmo no limite da terra em que você está. Fico sonhando que de alguma forma estamos nos olhando. Seria cômico se não fosse trágico.

Sempre gostei de ser sozinha, sabe. De ter meus momentos para pensar, escrever, refletir, sonhar e criar. O meu hobby favorito ainda é me trancar no mundo do meu quarto. Mas desde que você se foi, finalmente entendi o sentimento ruim que algumas pessoas descrevem sobre a solidão. E mais do que nunca, agora entendi que também é possível se sentir sozinha mesmo rodeada de pessoas. As presenças se tornam apenas sombras. Sombras fracas demais para ofuscar você nos meus pensamentos.

Tudo isso porque nós costumávamos dizer que éramos um só, lembra?

Agora a distância me dá medo. Medo de que ela faça uma vida se desmembrar para voltar a ser duas, sem contexto, sem ligação. Medo de que a cor que existia na pequena cidade próxima à serra se divida e não consiga mais mesclar nem aqui nem aí. Medo de que sejam apenas duas cidades cinzas. Duas vidas. Você e eu.

Você                                                                                                  e                                                                                                                  Eu.

 

Nós – Parte II

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