Um café e um mistério, por favor

Em 18.05.2015   Arquivado em Crônicas

 

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Quem é você, Amélia, Amélie? Esse é mesmo o seu nome? Por que toda essa maquiagem escura em volta desses olhos que mais parecem gelo? O que você tem que não se deixa derreter, garota?

Acho que é o que me pergunto todos dias enquanto como no Café Madame Nola todas as manhãzinhas. Ela se esconde na montanha de waffles que pede rotineiramente.

Os olhos dela me parecem sempre cansados. São assim desde sempre, eu acho. Desde que nos trombávamos na cantina da escola. Já faz três anos. Três anos que a percebo ao meu redor. Mesmo que sem querer. Acho que é sem querer.

É como se enquanto eu estivesse saindo para trabalhar, ela estivesse voltando. Os cabelos sempre como se ela tivesse acabado de sair de uma fuga louca contra o vento gelado e cortante do inverno que vem chegando.

Mas ao mesmo tempo que dos olhos dela brotam a ressaca, do corpo parece nascer uma certa vibração. Como se estivesse eletrocutado, ligado, aceso. E os olhos… Bem. Parecem luzes, luzes cinzas e turvas que costumam aparecer no escuro do horizonte quando um marujo está perdido no oceano. Aquele tipo de luz que traz esperança ao desespero. A luz que eu sempre imaginei que precisava.

Os cabelos loiros caindo ao lado do ombro esquerdo enquanto ela apoia o corpo sobre a mesa. Posso jurar que ela me percebe mas finge que não. Como sempre. Enquanto eu me esforço pra fazer parte disso, de uma olhada, de um sorriso, de um momento. Um mundo que nem sei se existe. Um universo que queria conhecer. Acho que pra me tirar dessa mesmice, desse óbvio, dessa coisa certa demais.

Amélia, Amélie. Quem foi você? Quem é você? Qual era o nome que suas amigas costumavam lhe chamar pra guardar um lugar na mesa da cantina, mesmo? Era algo que se perdia no meio de tantas vozes. Algo que se perdia porque eu não conseguia olhar pra outra coisa que não fosse pra ela. Um mistério.

Já perguntei para a Madame Nola, a dona da lanchonete. Umas sete vezes, eu acho. Ela não sabe. Disse que só sabe que ela mora aqui por perto. E que gosta de waffles. Uma montanha de waffles.

Fico me perguntando se é o destino me dando uma chance de conhecer o desconhecido. O desconhecido que faz parte de mim há três anos. Na escola, nas redondezas. Na manhã.

Então os quase 25 minutos que tenho para conhecê-la de longe sempre acabam. Ela passa apressada vestindo o casaco e a bolsa jogada no ombro. Sempre ao lado da minha mesa. Três anos criando a história de uma garota que passa por mim no Café Madame Nola.

Mas me surpreendo quando dessa vez me flagro encarando botas pretas e gastas ao lado da minha mesa. Subo meu olhar e dou de cara com ela. Olhos cinzas, borrados, turvos, vivos. Um guardanapo jogado em cima do meu prato.

“É Amélie.”

Leio enquanto escuto a porta de vidro se fechar.

  • Allie Próvier

    Em 18.05.2015

    "Mas me surpreendo quando dessa vez me flagro encarando botas pretas e gastas ao lado da minha mesa. Subo meu olhar e dou de cara com ela. Olhos cinzas, borrados, turvos, vivos. Um guardanapo jogado em cima do meu prato.
    “É Amélie.”
    Leio enquanto escuto a porta de vidro se fechar."
    TO ARREPIADA! hahahaha. Que crônica mais linda, Nats, socorro. Essas descrições sobre a Amélie, as características, tão perfeitas. Eu amo a sua escrita <3

    Lovecats | allieprovier.blogspot.com

  • Isabela

    Em 18.05.2015

    PELO AMOR DE DEUS MENINAA! Sério que você escreveu isso? Tô abismada. Sabe quando você ama um livro, e quer ler ele todo, todo mesmo, 1 milhão de vezes, de trás pra frente? Ou coisa do tipo. Fico imaginando isso em um livro. Você é incrível. Nunca pare de escrever, porque realmente, isso me tocou. Te conheci através dessa crônica, mas pode ter certeza que vou acompanhar todas, até favoritei seu blog! <3
    http://www.isabelalyrio.com

  • Isabella Madureira

    Em 18.05.2015

    Adorei o seu texto! Ficou ótimo 🙂
    https://isabellamadureira.wordpress.com/

  • opsjes

    Em 18.05.2015

    Sabe aquele tipo de texto que de tão foda te faz arrepiar? Pois então! Cara………….. Escreva um livro, ou faça capítulos dessa história aqui no blog, ou de outras, sei lá. Só escreva! Por favor… Tua escrita, esse teu texto faz você ficar com aquela urgência de mais e mais, sabe? Apaixonada!

  • Andreia

    Em 18.05.2015

    Ficou maravilhoso, Natália.Fico tão contente de poder ler dignas crônicas hoje em dia;em meio à essas rotinas mal feitas, à esse acúmulo de informações e de pouca qualidade.Continue sempre assim, pois fez mais uma fã ^^

  • Fran Vilariço

    Em 18.05.2015

    Nat, cara, você arrasou! Eu amo escrever e você me trouxe muita inspiração com essa história linda! Seria legal continuar com ela, né? Adoraria saber o que acontece depois e depois… você tem talento, garota! Vou acompanhar seu blog, sucesso sempre <3

  • lorenacaribe

    Em 18.05.2015

    Natália !!! Lindo demais seu texto !!! Você realmente tem muito talento !!!
    adoraria ver essa cena em uma história completa
    obrigada mesmo por compartilhar o link do seu blog, adorei conhecer
    e estarei acompanhando sempre !!! muito sucesso !!! bjooo

    Meu Blog Diário http://lorenacaribe.blogspot.com.br

  • Juliana Silva Matias

    Em 18.05.2015

    Uau! Garota nunca li algo assim! Você escreve muito! Já tentou mandar seus textos pra alguma editora ou algo do gênero? Você escreve muito bem!!!

  • lorenarupar

    Em 18.05.2015

    Maravilhoso! Estou totalmente sem palavras! Serio, você realmente deveria escrever um livro. Da vontade de ler mais e mais sabe? Espero que faça uma continuação pois fiquei extremamente curiosa para saber o que acontece. Arrasou! Ganhou uma fã, to apaixonada sz

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