Quarto Azul

Em 04.08.2015   Arquivado em Crônicas

Quarto Azul

The Blower’s Daughter – Damien Rice

Eu já estive aqui tantas vezes… Minhas pernas bambeiam só de pensar que tive a oportunidade de pisar nesse quarto azul mais uma vez, mesmo sendo escondido.

Ainda consigo sentir o cheiro de nós dois em todas as paredes tão decoradas de coisas. Havia só dois meses que eu não entrava nesse quarto, e percebi como sentia falta do seu mundo, das suas particularidades.

Eu estava li feito bobo olhando cada detalhe daquele lugar tão azul e tão você que eu não queria esquecer. Quadrinhos pequenos e cheios de frases moderninhas que você vive tirando do Tumblr ou do WeHeartIt. Um calendário velho dos Beatles, estrelinhas que brilham no escuro… Todos tão delicadamente expostos na parede. Olho para cima já esperando encontrar o rosto do Damien Rice no teto. Você deve ser a única maluca que gruda pôsters no teto. Aliás, você deve ser a única maluca que acha o Damien Rice o cara mais bonito no universo. Garotas normais gostam de One Direction, do Justin Bieber… Mas não você. Porque você não é uma garota qualquer. Você é a Melina Becker. A garota por quem eu sou apaixonado desde a terceira série.

E só seis anos depois eu tive a chance de ser alguém que eu realmente queria ser pra você. Passei de colega de sala a amigo, de amigo a melhor amigo. Ouvi durante anos você falar dos carinhas de quem estava a fim. Ouvia com afinco, fingindo para que cada detalhe não soasse como uma apunhalada no meu estômago e isso não ficasse explícito na minha cara.

Só Deus sabia como aquilo doía, mas eu preferia estar ali e fazer parte da sua vida daquele jeito do que simplesmente não estar por perto. Fazia piadas e fingia não estar me mordendo de ciúmes por eu nunca ser o cara dos seus sonhos.

Suspiro em meio a penumbra do seu quarto azul. Sei que não deveria ter vindo aqui assim, na calada da noite, mas eu meio que precisava. Se você sonhar que invadi seu quarto pela janela, provavelmente cortaria as minhas pernas. Essa era sempre a sua ameaça para qualquer ato meu.

Olho para a sua cama. A cabeceira de metal toda decorada com piscas-piscas de led. Acesas como sempre. E você. Que saudade de ver você dormindo assim. Quantas noites eu não dormi nessa mesma cama, cada um deitado com a cabeça em uma extremidade diferente. Você adorava cutucar as minhas costas com os pés para saber se eu estava acordado.

E sua mãe nem se incomodava com tudo aquilo. Éramos melhores amigos há tanto tempo! Ninguém via mal nenhum naquilo.

Na verdade, só eu via. O maior mal era estar ali ao seu lado todos os dias, amá-la… E amá-la secretamente sem ser percebido. Esse era o meu maior mal. Uns chamariam de castigo, outros de carma… Eu chamo de destino.

Os piscas-piscas refletiam o azul da sua parede no seu rosto, como em todas as noites. E você se nomeava a menina azul. O mesmo velho cenário… Só que eu não faço mais parte dele.

Porque inventei de finalmente surtar por causa de mais um cara na sua vida. Outro cara que não sabia nada sobre você, não conhece seus gostos, medos e angústias. Não sabe que você mistura Nescau Cereal com o Froot Loops e acha isso gostoso. Não sabe que você prefere os filmes velhos aos novos. E mesmo assim ele é o dono do seu coração azul, e não eu.

Mas em vez de apenas dizer o que eu sentia e que estava guardado durante todo esse tempo, eu quebrei o código. Queimei o cara e vi você o defendendo. E você o escolheu em vez de escolher a mim. É claro que isso não foi dito, mas algumas coisas são subentendidas na vida, não é?

Observo você respirando tão lentamente. Também perdi a conta de quantas vezes velei seu sono assim. Às vezes com o seu rosto marcado por lágrimas…. Ou às vezes porque eu simplesmente adorava assisti-la dormindo.

Antes que pudesse me arrepender, coloco o envelope azul sobre a mesinha ao lado da sua cama. Quando me direciono à janela, piso em alguma coisa e isso acaba perturbando seu sono. Meu coração foi para a boca e eu corri para fora da janela o mais rápido possível, e eu sei que a única coisa que seus olhos captaram foi a janela se fechando em meio ao escuro azul do seu quarto.

 

Gostou da crônica? Quer que ela tenha continuação? Comenta aqui pra tia Nats, manda mensagenzinha aqui, sinal de fumaça ou o que mais você preferir. Vamos brincar de “Você Decide”? 

  • Allie Próvier

    Em 04.08.2015

    "Antes que pudesse me arrepender, coloco o envelope azul sobre a mesinha ao lado da sua cama. Quando me direciono à janela, piso em alguma coisa e isso acaba perturbando seu sono. Meu coração foi para a boca e eu corri para fora da janela o mais rápido possível, e eu sei que a única coisa que seus olhos captaram foi a janela se fechando em meio ao escuro azul do seu quarto."
    AI MEU CORE! <3
    E esse final, socorro! Trate de fazer a continuação e abrir os olhos dessa menina, pelo amor de Deus! hahahaha. <3

    Lovecats | allieprovier.blogspot.com

  • Anite

    Em 04.08.2015

    Escreves muito bem Nats, foi um prazer conhecer seu ambiente virtual, decerto deve continuar..
    Voltarei para ler.

    Doces beijos.

    Viszlát.

  • lorenarupar

    Em 04.08.2015

    Preeciso da continuação desse texto! Só pra variar, mais um texto perfeito né? <3

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