O metrô e as suas peculiaridades

Em 01.06.2015   Arquivado em Crônicas

metrô

Eu entrei descabelada dentro do vagão, em busca de um lugar para me apoiar. Os assentos já estavam ocupados, como de costume.

Praguejei alguma coisa que não me lembro bem. Geralmente lembro das coisas que pronuncio. Mas naquele momento pareceu-me que as palavras dançavam de tal maneira que a minha língua se enrolou dentro da boca.

Não sabia se o que via a minha frente era um anjo ou um demônio, mas era o ser mais bonito que a luz dos meus olhos algum dia havia captado.

Estava de pé, um pouco a frente. Não pude distinguir a cor dos seus olhos, pois eles estavam ocupados demais, correndo pelas páginas de um livro de capa dura que carregava entre as mãos. Podia ver sua mandíbula se contrair distraidamente enquanto absorvia alguma informação que parecia muito mais interessante do que eu, que havia acabado de chegar.

Pensei em me aproximar. Pensei em cutucar-lhe, derrubar uma moeda, não sei. Queria ganhar um olhar que fosse. Ele roubou a minha atenção, afinal. Porque não poderia conceder-me um pouco da sua?

Depois achei bobeira. Me xinguei interiormente por pensar em tudo aquilo sobre um estranho em menos de cinco minutos. Ri de mim mesma, passando a mão pelos fios soltos que caíam do meu coque bagunçado. E posso jurar que senti meu rosto esquentar quando ele enfim me olhou. Minha risada abafada e sem graça tirou-o de seu torpor.

Fiquei tão sem graça que baixei o olhar, procurando me focar em qualquer coisa que não os meus sapatos, mas meus olhos pareciam quase sair de órbita. Então foi a vez dele rir baixo antes de se aproximar porque mais gente adentrava o metrô.

Seu peito foi de encontro ao meu ombro, porque algum idiota o empurrou para entrar.

“Desculpe.” Foi o que ele disse.

Verdes. Seus olhos eram claros e incrivelmente verdes. Eu teria respondido se me lembrasse disso. Apenas sorri de canto, já que foi a única coisa que meu corpo se lembrou de como fazê-lo. Sua pele cheirava a grama recém-cortada e menta, talvez. Eu gosto de menta.

“O que você está escutando?”. Acho que deixei de prestar atenção na música que embalava meus ouvidos na hora que entrei ali. Nem percebi que ainda estava com os fones de ouvido.

Percebi que as esmeraldas que corriam por aquele livro tão mais interessante que eu estavam mais preocupados comigo do que com as palavras misteriosas que liam antes. A mandíbula se contraía esperando pela minha resposta.

Eu teria respondido. Se não tivesse que ir.

  • lorenarupar

    Em 01.06.2015

    Lindo demais! Acho que eu já disse que você deveria escrever um livro né? Kk
    Maravilhoso!

  • Juliana Silva Matias

    Em 01.06.2015

    Adorei a crônica adoro seu jeito de escrever ele nos prende ao texto você manda muito bem!!!

  • Denise

    Em 01.06.2015

    Uma melhor que a outra *•* Parabens amore c:

  • Andreia

    Em 01.06.2015

    Ficou demais Natália! Como sempre, muito bem escrita e cheia de criatividade e detalhes… ♥

  • Allie Próvier

    Em 01.06.2015

    Eu não consegui evitar imaginar você e o Lucas nessa crônica, Nats HUAHAHUHAUUA. Tão lindos <3
    E como você acaba desse jeito?! Sério, tô triste. Pelo amor de Deus, faz uma continuação dessa também!

    Lovecats | allieprovier.blogspot.com

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