Categoria "Crônicas"

Divino drama

Em 09.06.2015   Arquivado em Crônicas

DivinoDrama

Eu digo que é medo, porque não sei perceber se você não quer. Estou indo além, me enganando e me sentindo mais amada, quando talvez o amor não esteja presente todo esse tempo em que estou aqui.

Você poderia ser mais honesto e não me manter aqui mais um ano. Mas não. Você realmente não regride um segundo sequer. E quando mesmo não me desejando, não diz adeus. Não me deve satisfações, porque nunca foi capaz de me prometer nada. Ainda bem, porque odeio promessas. Principalmente quando sei que você não vai cumprir.

E a chave de tudo está nisso: saber. Ou melhor (pra você, pior pra mim), fingir não saber.

E você deve rir, como se eu estivesse me perdendo e te perder fosse um erro daqueles. Cacete! Talvez você esteja aproveitando o máximo que pode ser tirado de mim. Você pode me roubar o sorriso e o olhar mais doce que eu posso emitir cada vez que te vejo. Você anda conhecendo meus dias e meus risos. E você, enfim, me viu chorar e mostrar os meus medos. Mas você não me conhece. E sinto dizer que não te conheço e nem sei com quem estou lidando.

 

Você diz que só sei fazer drama. Mal sabe que o único drama é ter medo de se entregar. Que o único mal é não admitir nas horas certas. E saber que você vai lembrar.

Eu tenho os melhores dias que você é capaz de me oferecer. Eu tive as melhores fases e até te odiei. Por segundos. Por impulsos. Por existir. Como te faço memória. Como te moldo. Por vontade. Por vontade de você.

Uma guerra fria

Em 04.06.2015   Arquivado em Crônicas

Uma guerra fria

Você sabe que é a ultima vez que vai ver uma pessoa quando os dois sentam-se à mesa e durante o jantar, ninguém tem algo a dizer. Quando o rótulo da Coca-Cola parece ser mais fácil de ler do que os olhos daquele que você achava que conhecia por tanto tempo.

Então você percebe que a sua comida favorita simplesmente perdeu o gosto e você precisa fazer um esforço enorme para conseguir engoli-la.

Você percebe que é a última vez que vai ver uma pessoa quando os dois inventam uma desculpa para ir ao banheiro o tempo todo para não precisarem inventar alguma conversa boba só para que o silêncio não reine.

O celular nunca pareceu tão mais interessante e fácil de tocá-lo do que a pessoa a sua frente. A mesa é só o obstáculo mais superficial entre vocês agora.

Então você se pega desejando ser as pessoas das outras mesas, que parecem estar mais felizes do que você. Na sua mesa nenhum som é emitido além de pigarros.

Até mesmo os garçons são capazes de sentir o ar pesado que rodeia a sua mesa e parecem se sentirem mal só de olhar. Dá para apostar que eles ficam desejando internamente que vocês não o chamem mais uma vez.

É como uma guerra-fria em que ninguém quer xingar, ninguém quer gritar até que os pulmões pareçam estar explodindo e entrando em colapso com o coração. Nenhum dos dois está disposto a puxar o gatilho da arma, embora ambas estejam engatilhadas para acabar com tudo de uma vez. Ninguém quer assumir que algo já se esvaiu faz algum tempo. Aquele tempo, lembra? Mas não precisa dizer. No momento, as ações estão literalmente falando mais do que as palavras. Não há confronto de um contra o outro, mas contra si próprio.

Então você sabe que é a última vez que vai vê-lo quando chega em casa e prefere escrever um texto como esse do que ter-lhe dito tudo o que sentiu. E você sabe que não terá mais outra chance. Porque vocês não vão mais se ver. Porque vocês nem mais se enxergavam.

Você percebe que tudo não passou de últimos olhares, últimos sentidos, últimas palavras. No final tudo se trata da última vez, e você sabe disso. Porque assim como tão memoráveis são as primeiras vezes… Tão dolorosas são as últimas vezes. E infelizmente… Tudo tem a sua última vez.

O metrô e as suas peculiaridades

Em 01.06.2015   Arquivado em Crônicas

metrô

Eu entrei descabelada dentro do vagão, em busca de um lugar para me apoiar. Os assentos já estavam ocupados, como de costume.

Praguejei alguma coisa que não me lembro bem. Geralmente lembro das coisas que pronuncio. Mas naquele momento pareceu-me que as palavras dançavam de tal maneira que a minha língua se enrolou dentro da boca.

Não sabia se o que via a minha frente era um anjo ou um demônio, mas era o ser mais bonito que a luz dos meus olhos algum dia havia captado.

Estava de pé, um pouco a frente. Não pude distinguir a cor dos seus olhos, pois eles estavam ocupados demais, correndo pelas páginas de um livro de capa dura que carregava entre as mãos. Podia ver sua mandíbula se contrair distraidamente enquanto absorvia alguma informação que parecia muito mais interessante do que eu, que havia acabado de chegar.

Pensei em me aproximar. Pensei em cutucar-lhe, derrubar uma moeda, não sei. Queria ganhar um olhar que fosse. Ele roubou a minha atenção, afinal. Porque não poderia conceder-me um pouco da sua?

Depois achei bobeira. Me xinguei interiormente por pensar em tudo aquilo sobre um estranho em menos de cinco minutos. Ri de mim mesma, passando a mão pelos fios soltos que caíam do meu coque bagunçado. E posso jurar que senti meu rosto esquentar quando ele enfim me olhou. Minha risada abafada e sem graça tirou-o de seu torpor.

Fiquei tão sem graça que baixei o olhar, procurando me focar em qualquer coisa que não os meus sapatos, mas meus olhos pareciam quase sair de órbita. Então foi a vez dele rir baixo antes de se aproximar porque mais gente adentrava o metrô.

Seu peito foi de encontro ao meu ombro, porque algum idiota o empurrou para entrar.

“Desculpe.” Foi o que ele disse.

Verdes. Seus olhos eram claros e incrivelmente verdes. Eu teria respondido se me lembrasse disso. Apenas sorri de canto, já que foi a única coisa que meu corpo se lembrou de como fazê-lo. Sua pele cheirava a grama recém-cortada e menta, talvez. Eu gosto de menta.

“O que você está escutando?”. Acho que deixei de prestar atenção na música que embalava meus ouvidos na hora que entrei ali. Nem percebi que ainda estava com os fones de ouvido.

Percebi que as esmeraldas que corriam por aquele livro tão mais interessante que eu estavam mais preocupados comigo do que com as palavras misteriosas que liam antes. A mandíbula se contraía esperando pela minha resposta.

Eu teria respondido. Se não tivesse que ir.

Acerto de erros

Em 27.05.2015   Arquivado em Crônicas

acertodeerros

De: Breno

Para: Nina

Data: 12 de abril de 2015 03:15

Assunto: Acerto de erros

 

Sei que são 02h54 da manhã. Sei que provavelmente você já deve estar no seu décimo quinto sono. Na verdade, você sempre teve facilidade pra dormir, e eu sempre invejei isso.

Sempre fui do tipo “atormentado” pelos próprios pensamentos em plena madrugada. Principalmente quando o assunto é você.

Sei que não é normal escrever um e-mail dessa procedência nessa hora da madrugada, mas não estou aguentando essa barreira que você colocou entre nós. Já não atende mais minhas ligações, me bloqueou no Skype, no Facebook, no Instagram, e até mesmo no maldito Snapchat. E quando vou até o seu prédio, você pede para o Seu Floriano dizer que não está.

Então, decidi mandar este e-mail, antes que você se lembre de me bloquear por aqui também.

Sei que brigamos o tempo todo. Sei que meu ciúmes me domina, sei que você é estourada e odeia minhas “brincadeiras de moleque”. E sei que errei também quando te escondi a verdade. Sei que isso o que eu fiz foi mais uma molecagem. Mas eu sei mais que tudo que eu te amo e não queria magoá-la.

Droga, Nina… A única coisa que eu não sei é porque sou tão idiota.

A minha vida toda… Eu só fiz cagada. Nunca fui o melhor aluno ou o filho exemplar. Nunca fui o cara mais fiel, nem “o cara certo pra casar”. Na verdade, sempre fui do tipo que “surfa conforme a onda”, sabe? Daqueles que acreditam no sentimento do momento e pronto.

Aí você apareceu… Com esse jeito de menina mandona arrogante, querendo botar a banca e dizendo que sabia tudo sobre tudo. E eu lembro que quando tentei te lançar uma das minhas cantadas baratas, você teve a audácia de me responder: “Cuidado, moleque… Vai acabar se apaixonando por mim se continuar perto assim.”

Eu ri. Ri na sua cara, me achando o tal. Ri, ri, ri…. E no final, quem tava rindo era você. Rindo de mim de quatro por você. Rindo da minha risada, rindo o meu riso, rindo comigo.

Do dia pra noite você passou a fazer parte da minha vida, da minha casa, da minha cama, dos meus sonhos.

Parte de mim mesmo.

Botou a banca, e botou pra valer. Me botou na linha, me botou no caminho, me botou no lugar. E ali eu fui ficando, gostando, cuidando, me arrumando, te amando.

Só que moleque é moleque. Cai na piada, cai na dos amigos. Não vou ser cretino e dizer que a culpa foi deles. A culpa foi minha. Porque tive medo.

E o medo me fez te ver partir sem olhar pra trás, certa de que eu era o seu maior erro, quando mesmo errado, eu sabia que você era o meu maior acerto.

Você É meu maior acerto.

Nina, sei que nada do que eu falar justifica. E se estiver lendo até aqui, eu agradeço…. Porque nunca tive a chance nem a coragem de te dizer tudo isso. De te confessar o que você fez e é na minha vida.

Sei que não tenho quase nada a te oferecer, além de alguns acertos e muitos dos erros que provavelmente ainda cometerei. Sei que só tenho uns trocados e esse amor babaca… Mas… Mas eu te amo.

E… E eu ainda me lembro de como você me beijou debaixo da luz falha e turva da avenida. Eu ainda me lembro de como você sussurrou aquelas palavras meio sem sentido. Eu pensei que fosse efeito do álcool, mas acho que hoje eu finalmente entendi. Você disse:

 

– Tudo bem.

– Tudo bem o quê, maluca?

– Eu vou te perdoar, mas… Isso não significará muita coisa.

 

O problema é que significa, Nina. Você sabia que em algum momento eu ia errar contigo e mesmo assim decidiu ficar pra ver.

Você viveu um erro meio acertado. E eu vivi achando que era um acerto. Errado.

 

Só queria uma chance. Uma ficha. Uma aposta. Me deixa fazer certo?

 

Te amo.

Breno

Um café e um mistério, por favor

Em 18.05.2015   Arquivado em Crônicas

 

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Quem é você, Amélia, Amélie? Esse é mesmo o seu nome? Por que toda essa maquiagem escura em volta desses olhos que mais parecem gelo? O que você tem que não se deixa derreter, garota?

Acho que é o que me pergunto todos dias enquanto como no Café Madame Nola todas as manhãzinhas. Ela se esconde na montanha de waffles que pede rotineiramente.

Os olhos dela me parecem sempre cansados. São assim desde sempre, eu acho. Desde que nos trombávamos na cantina da escola. Já faz três anos. Três anos que a percebo ao meu redor. Mesmo que sem querer. Acho que é sem querer.

É como se enquanto eu estivesse saindo para trabalhar, ela estivesse voltando. Os cabelos sempre como se ela tivesse acabado de sair de uma fuga louca contra o vento gelado e cortante do inverno que vem chegando.

Mas ao mesmo tempo que dos olhos dela brotam a ressaca, do corpo parece nascer uma certa vibração. Como se estivesse eletrocutado, ligado, aceso. E os olhos… Bem. Parecem luzes, luzes cinzas e turvas que costumam aparecer no escuro do horizonte quando um marujo está perdido no oceano. Aquele tipo de luz que traz esperança ao desespero. A luz que eu sempre imaginei que precisava.

Os cabelos loiros caindo ao lado do ombro esquerdo enquanto ela apoia o corpo sobre a mesa. Posso jurar que ela me percebe mas finge que não. Como sempre. Enquanto eu me esforço pra fazer parte disso, de uma olhada, de um sorriso, de um momento. Um mundo que nem sei se existe. Um universo que queria conhecer. Acho que pra me tirar dessa mesmice, desse óbvio, dessa coisa certa demais.

Amélia, Amélie. Quem foi você? Quem é você? Qual era o nome que suas amigas costumavam lhe chamar pra guardar um lugar na mesa da cantina, mesmo? Era algo que se perdia no meio de tantas vozes. Algo que se perdia porque eu não conseguia olhar pra outra coisa que não fosse pra ela. Um mistério.

Já perguntei para a Madame Nola, a dona da lanchonete. Umas sete vezes, eu acho. Ela não sabe. Disse que só sabe que ela mora aqui por perto. E que gosta de waffles. Uma montanha de waffles.

Fico me perguntando se é o destino me dando uma chance de conhecer o desconhecido. O desconhecido que faz parte de mim há três anos. Na escola, nas redondezas. Na manhã.

Então os quase 25 minutos que tenho para conhecê-la de longe sempre acabam. Ela passa apressada vestindo o casaco e a bolsa jogada no ombro. Sempre ao lado da minha mesa. Três anos criando a história de uma garota que passa por mim no Café Madame Nola.

Mas me surpreendo quando dessa vez me flagro encarando botas pretas e gastas ao lado da minha mesa. Subo meu olhar e dou de cara com ela. Olhos cinzas, borrados, turvos, vivos. Um guardanapo jogado em cima do meu prato.

“É Amélie.”

Leio enquanto escuto a porta de vidro se fechar.

Sempre Quase

Em 01.05.2015   Arquivado em Crônicas

 

SempreQuase2

Você disse que seríamos o que quiséssemos. Então segui o meu caminho por aquela viela úmida, em busca do que eu queria ser. Mesmo que eu não soubesse de fato o que eu queria. A garoa era fraca, mas não deixava de fazer o seu trabalho de molhar o asfalto.

A única coisa que eu sabia era que eu não queria um tempo. Essa história de “dar um tempo” é apenas uma desculpa. Uma maneira de fazer com que os dois se acostumem com o fato de que não estarão mais juntos.

Saí andando por entre aquela multidão de pessoas que passam apressadas todos os dias pelas ruas e que acabam se tornando minúsculas diante do grande fluxo de vidas que por ali passam.

Me senti sufocada naquela maré de gente pela qual eu tentava passar. O ritmo caótico nunca foi o meu preferido. O caos faz com que as pessoas deixem de perceber umas as outras mesmo que elas estejam próximas. A sensação de parecer sozinha em meio a tantas pessoas fez a minha garganta prender um soluço.

Você disse que jamais me sentiria sozinha. Que estaria sempre aqui para me amparar. E por que só o que eu sinto agora é um vazio que domina cada terminação nervosa do meu corpo?

Olhei pra cima quando senti os pingos de chuva engrossarem. Senti meu cabelo grudar na pele enquanto a água do céu se encarregava de tocar o meu rosto e me dar boas-vindas. Fiquei ali enquanto percebia que as pessoas ao meu redor começavam a se abrigar abaixo de algum guarda-chuva.

Você disse que não importa o quão forte é a chuva, pois o sol sempre vem. Então por que sinto que só que o verei agora é o mesmo céu cinza que me encara? Por que sinto que a chuva será como uma melhor amiga que derrama lágrimas comigo?

Parei de olhar pra cima quando alguém trombou no meu ombro na pressa de passar por mim.

“Por que não sai do caminho?”, murmurou. Porque não sei qual é o meu caminho, minha mente respondeu.

Você disse que caminharíamos juntos, lado a lado. Mas olho para o lado e você já não está. Mordo o lábio tentando lembrar em que momento fomos para lados opostos. Mas não consigo me lembrar.

Você disse que era pra sempre. Mesmo que o “sempre” não existisse.  Mesmo que não houvesse mais estrelas. Mesmo que as estações não existissem. Mesmo que o azul do céu não se fundisse mais com azul do mar no horizonte e não nos desse mais aquela sensação de sermos infinitos.

Mas as estrelas continuam no céu. As estações ainda existem. O azul do céu continua sendo o mesmo azul do mar, fazendo-me infinita todos os dias e todas as noites. Você é o único que não cumpriu a promessa quando disse “pra sempre”. Como sempre.

Além de Tudo

Em 24.04.2015   Arquivado em Crônicas

 

divalemdetudo

Eu saí pela porta sem nem olhar pra trás. Sabia que se me atrevesse, eu desistiria. É difícil se desprender de algo ao qual se está tão acostumada.

Eu nem sabia para onde estava indo, mas sentia que seria uma grande jornada. Conseguia sentir o sangue correr quente pelo meu corpo, em busca de algo que eu nem sabia o que era. Mas eu simplesmente corri. Corri até me perder na escuridão daquela cidade viva apenas pelas luzes que me embaçavam os olhos. Corri até sentir o ar se esvair e meus pulmões arderem. Até eu sentir meu coração bater contra o peito com força, pedindo por mais emoção, por mais aventuras.

Sempre fui o tipo de garota que escondia o rosto, que sorria de canto. Aquela que sentava na janela à espera de um sonho que talvez passasse por ali, enquanto observava as poucas estrelas que são ofuscadas pela presença das luzes artificiais em meio àquela cidade que se confunde com tanto cinza. Ficava ali assistindo as vidas passarem abaixo de mim. Tantas histórias, tantos universos… E eu ali, no meu pequeno infinito. Bem, eu cansei. Cansei e fugi do óbvio.

Chega de viver o que querem que eu viva. Eu quero calor, eu quero intensidade, eu quero incerteza, eu quero pular de cabeça e sentir aquele frio na barriga de uma queda livre, sem cordas, sem nada que me segure. Quero voar. Voar alto o bastante para ver tudo o que eu perdi vivendo naquela ilha de mesmice que achei que fosse o certo. Quero que o vento brigue com o meu cabelo, que assim como eu, quer ser livre. Sem amarras.

Quero levar um tombo, bater as costas, ralar o joelho. Quero sentir dor, quero chorar, e quero que aquele mesmo vento que brigou comigo vire meu amigo e me seque as lágrimas. Quero que a dor passe e eu volte a andar, para depois correr, pular. E voar. Quero que o sol me cegue com a sua luz, a única luz real capaz de vencer as artificiais. A única luz capaz de se vingar pelas estrelas que perdem seu brilho diante da imensidão e da imponência dos prédios durante a noite. Quero que esse sol me cegue e me faça acreditar na felicidade plena para que eu aposte todas as minhas fichas naquele amor maluco. Quero ter que quebrar a cara e achar que jamais me recuperarei. E quero me recuperar. E quero amar de novo.

Eu fugi do óbvio para transcender. Viver. Ir além. Além do meu mundo.

 

Divagações

Em 17.04.2015   Arquivado em Crônicas

 

divagações

Lá estava eu, com aquela mania boba, de novo.

Quando mantenho meu olhar fixo em uma mesma coisa por muito tempo é melhor se preocupar. Se não estou viajando mentalmente de olhos abertos (mas vazios), com certeza estou refletindo mesmo sobre o que estou observando. E ultimamente isso tem acontecido muito quando olho fotos.

Se alguém ainda olha para as fotografias e não é capaz de pensar que é uma bruxaria ou algo do tipo, então pra mim esse alguém não é normal. Quer dizer… Olha essa maluquice toda! A foto é capaz de congelar um momento que nunca mais vai se repetir na sua vida. Não importa se você tirar a mesma foto no mesmo lugar com a mesma pose no dia seguinte ou dali três anos. A foto nunca será igual porque o momento não é o mesmo. Mas o mais incrível de tudo isso é que mesmo que você saiba que aquele momento nunca mais irá se repetir daquela forma, se olhar atentamente para a fotografia, é possível lembrar o sentimento que estava dentro de você naquele exato instante. Essa sim é a maior mágica.

Só que ultimamente eu tenho me achado mais anormal do que de costume. É possível você sentir saudade daquele momento, daquele sentimento… Afinal de contas foi algo que você viveu. Mas e quando você olha para uma foto de um estranho e sente saudade daquilo que aquele estranho, e não você viveu?

Foi o que eu senti quando vi a foto de um “conhecido” nas redes sociais viajando por aí. Comecei a contemplar a sombra dele que se formou porque a foto foi tirada contra a luz do sol. E aquele sol… Que brilhava como se estivesse se derretendo e manchando todo o céu com aquelas cores arroxeadas… E o calor que emanava dele não era ruim, apenas o bastante para aquecer a pele e fazer com que fechemos os olhos para sentí-lo melhor.

BOOM! Quando percebi a loucura que estava me fazendo passar, saí à procura de algo que explicasse aquela bizarrice toda. Corri meus olhos pela tela do notebook, meus dedos quase desesperados, caçando respostas que com certeza não seriam encontradas. É claro que eu não encontraria. Apesar de todos sermos iguais, algumas coisas da nossa personalidade são mesmo particularidades e não se encontra em mais nenhum lugar.

De qualquer maneira… A resposta mais próxima na qual eu cheguei se resumia em uma única expressão. “Wanderlust”. Mas que diabos, nunca havia ouvido falar nessa palavra gringa. E por mais que eu jogasse no buscador, não consegui nenhuma tradução próxima do nosso idioma. Porque assim como a palavra “saudade” não existe para outros países… Wanderlust não existe para nós. Bem… Mas para mim passou a existir.

Saudade daquilo que não se viveu, saudade de um lugar ao qual nunca esteve antes. Necessidade. Necessidade de uma busca interior. Necessidade de um caminho, um destino. De uma jornada que ultrapassa qualquer fotografia e espaço de tempo. Devagar. Divagar. De vagar.

Nós – Parte II

Em 02.04.2015   Arquivado em Crônicas

 

52

Ele

Oi, baixinha. Pensei em muitas maneiras de começar essa carta. Resolvi fazer como você, e escrever em frente ao mar. Me surpreendi, porque eu realmente me senti próximo de você. Como se pudéssemos nos ver, acenar um para o outro, ou até mesmo nos tocar.

Ainda não me acostumei com o tempo daqui. Diferente de você, odeio o frio. Mesmo estando no verão, ainda é gelado. Aí me peguei lembrando de como eu ficava irritado quando você dizia “Ora, o frio é psicológico.” Em seguida, você ria sem parar da carranca que se formava no meu rosto. E eu realmente sinto falta disso.

Ainda pela manhã estava um pouco chateado com a briga que tivemos ontem à noite no telefone. Sei que já nos resolvemos, mas toda vez que brigamos acabo me sentindo preso nessas 4 horas de fuso horário que nos separam. E doi.

Nós dois sabemos que isso tudo não tem sido fácil. A distância e o tempo catalisam discussões e conflitos que jamais aconteceriam em CNTP (Condições Normais de Temperatura e Pressão). Aposto que arranquei um sorriso de você, agora.

Apenas peço que não desista de nós, meu amor. Infelizmente tive que buscar algo do outro lado do mundo, e você não pôde vir comigo. Mas não pense que está sendo assim tão fácil pra mim. Já estou em um ponto em que tudo me faz lembrar do seu jeito e de como era bom dormir e acordar contigo. De como a sua risada se misturava com a minha e parecia uma música nossa. Só nossa.

Não tenha medo. A distância só fez com o que o nosso amor se estendesse até o outro lado do mundo. Continuamos ligados. Eu estou aqui, mas meu coração está aí, onde sempre irá ficar. Com você, seja onde for.

É verdade que as duas cidades são cinzas e parece que tudo se entristeceu. Então te peço apenas uma coisa: Sorria. Continue a sorrir, meu amor. Porque é isso que traz cor ao meu mundo. Sorria enquanto não chega o dia de você vir para se juntar a mim.

Então seremos você e eu.

Nós.

Nós – Parte I

Nós – Parte I

Em 31.03.2015   Arquivado em Crônicas

 

nós

Ela

Está frio onde você está? Já dá pra contar as estrelas do céu? Afinal, são 9 mil quilômetros de distância e 4 horas de diferença no solstício. Aposto que aí ainda nem anoiteceu.

Hoje foi o dia mais frio dos últimos vinte anos aqui na cidade, sabia? Estou te contando isso porque… Você sabe, eu amo o inverno. Só que… Chegou um momento em que eu já não sei se o frio que estou sentindo é porque está fazendo 8º ou porque falta você do meu lado.

Estou sentada aqui na encosta do mar com James Blunt estourando nos meus ouvidos. E se eu fechar os olhos enquanto lhe escrevo esta carta, tenho certeza que posso escutar você dizendo: “James Blunt é um cara que respira sofrimento. Você gosta de sofrer, né, amor?”. Eu acho que gosto, mesmo. Gosto de ser intensa, de sentir até que tudo escape do meu peito. E no momento o que me escapa é essa saudade que eu tenho de você.

E sentada aqui no limite desta terra, me flagro encarando o horizonte do mar, imaginando se você está fazendo o mesmo no limite da terra em que você está. Fico sonhando que de alguma forma estamos nos olhando. Seria cômico se não fosse trágico.

Sempre gostei de ser sozinha, sabe. De ter meus momentos para pensar, escrever, refletir, sonhar e criar. O meu hobby favorito ainda é me trancar no mundo do meu quarto. Mas desde que você se foi, finalmente entendi o sentimento ruim que algumas pessoas descrevem sobre a solidão. E mais do que nunca, agora entendi que também é possível se sentir sozinha mesmo rodeada de pessoas. As presenças se tornam apenas sombras. Sombras fracas demais para ofuscar você nos meus pensamentos.

Tudo isso porque nós costumávamos dizer que éramos um só, lembra?

Agora a distância me dá medo. Medo de que ela faça uma vida se desmembrar para voltar a ser duas, sem contexto, sem ligação. Medo de que a cor que existia na pequena cidade próxima à serra se divida e não consiga mais mesclar nem aqui nem aí. Medo de que sejam apenas duas cidades cinzas. Duas vidas. Você e eu.

Você                                                                                                  e                                                                                                                  Eu.

 

Nós – Parte II

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